Bases e Diretrizes

12764670_1219699671391607_2106566237417086249_o

Muitas iniciativas somaram-se para conceber um movimento contínuo em busca da melhor relação entre os grupos sociais. Não se pode deixar de admitir a grande cooperação que as atividades religiosas, técnicas, econômicas e demais, trouxeram para diminuir os problemas que – em linhas gerais – afligem todos os homens no tocante à sua dignidade.

O problema da crise na autoridade é sem dúvida um dos maiores que ferem a civilização ocidental, não somente pelo fato de significativa parte das autoridades constituídas não corresponderem ao encargo recebido, em consequência do que, enfraquecem as instituições e desarmonizam as relações que naturalmente deveriam existir entre os representantes e aqueles que devem submeter-se com a necessária confiança com que o “todo da multidão” se deixa representar por seus “vices”, mas principalmente pelo fato de que desse problema outro maior e mais profundo penetra na própria ordem com que o homem deveria se comprometer com as relações que o cercam e através das quais asseguram sua dignidade.

É preciso que o homem desenvolva a si próprio para bem desenvolver sua família, do saudável desenvolvimento da família resultarão pessoas capazes de estimular o desenvolvimento sustentável da nação – não só no campo econômico, mas também naqueles outros campos humanos que muitas vezes se veem prejudicados em virtude do desenvolvimento de aspectos parciais. Uma vez desenvolvida a nação, essa poderá cooperar com a comunidade internacional.

Por isso desejamos chamar a atenção para alguns aspectos que facilmente se destacam diante de nossos olhos – sem cair na crueza dos números – mas que de uma maneira ou de outra, obstruem o homem com relação ao desenvolvimento da sua condição.

A miséria certamente pode ser apontada como o problema basilar de todos os demais, convencionou-se designar por “primeiro mundo”, “segundo mundo”, “terceiro mundo” e até mesmo um “quarto mundo” a escala crescente da miséria, entretanto, essa nomenclatura não é tão apropriada, afinal, a miséria não esta presa em “blocos”, mas é a evidencia dela que nos permite designa-la genericamente assim. A miséria existe em contrastes absolutamente nítidos dentro de todos os países e impedem que pessoas humanas reais – geralmente ocultadas por números estatísticos – tenham acesso aos meios necessários para se desenvolver a nível pessoal, familiar, nacional e internacional como convém numa fraternidade universal em que somos membros por nossa dignidade e filiação comuns.

Quando analisamos as grandes conquistas de nosso tempo, como os benefícios trazidos pela técnica, a superprodução agrícola, o avanço da medicina, da diplomacia internacional, bem como a produção dos mais diversos itens de conforto e a mais absoluta eficiência dos meios de comunicação, sobressai a nossos olhos com maior destaque o problema do acesso a esses bens e mesmo o acesso à consciência dessa problemática, que continua bruscamente limitado e com essas limitações outras se avizinham – não podemos deixar de nos preocupar – com o agravante da falta de saneamento da qual decorrem doenças e epidemias que assolam a população, a falta de alimentação adequada, a sujeição a condições de “trabalho” ultrajantes e desumanas que ganham cada vez mais terreno, em fim, quando olhamos o panorama, infelizmente sentimos um amargor que não pode deixar de comprometer nossas consciências e levantar a questão: Estamos fazendo o suficiente?

É preciso dissociar-nos daquelas vozes pessimistas que não creem na bondade dos avanços que são obtidos por quanto mais em alguns lugares do mundo sejam favoráveis às condições para o desenvolvimento humano. Devemos manter longe de nossa boca palavras depreciativas das boas conquistas que o sistema atual de organização foi capaz de produzir, entretanto, não é possível deixarmos de verificar que significativa parte da população fica à margem do desenvolvimento, de maneira que não se pode conceber que, de um momento para o outro, algum fator extrínseco ou intrínseco será capaz de demovê-los ao caminho do progresso.

As próprias expressões culturais se veem profundamente ameaçadas pelo poder econômico, em um momento pela miséria e noutro por uma superestrutura desse poder que pretende cooptar por meios abusivos a independência dos povos. É claro que a crise econômica que assola nosso país, associada com a crise da autoridade e uma profunda e lastimável chaga que é a da corrupção – essa ultima que quebra as relações de confiança primeiro entre dirigidos e dirigentes e depois de uns para com os outros e em todos os níveis – traz consigo perigosas armadilhas que se revestem de uma “aura sedutora” mesmo carregando a semente de maiores males.

A nação pode ser concebida como o conjunto de grupos naturais, cônscios de suas origens e de seu destino comum. O vocábulo “Nação” envolve um conceito racional-cultural-histórico. O patriotismo, como sentimento, como protoconsciência cívica, é salutar e deve ser cultivado, mas, não pode quedar-se só no apego a símbolos, não pode e não deve permanecer apenas como um sentimento lírico, um simples ufanismo, mas evoluir para a autoconsciência da realidade nacional, para a maturidade do caminho democrático.

Não devemos só enxergar as belezas de nosso país, visto que são muitas, pois isso é próprio do patriotismo estático. O amor ao Brasil, para que seja sadio, deve comprometer aqueles que desejam de coração sincero promover mudanças, com o estudo profundo da realidade e dos problemas de nossa terra e de nossa gente, conseguindo não só constatar problemas, insuficiências e limitações, mas também concebendo e engendrando as alternativas para um pleno desenvolvimento da comunidade nacional, sem desvincular-se ou atordoar o desenvolvimento das demais nações, afinal, deve-se considerar a consciência de um bem mundial no exercício do papel que cabe a cada povo.

Parafraseamos Russel Kirk sobre o tema “conservadorismo” a fim de que os termos “conservação da cultura” não sejam confundidos em seus conceitos com ideias comumente defasadas no dialeto político.

 “O conservador não se opõe ao aprimoramento da sociedade, embora ele tenha suas dúvidas sobre a existência de qualquer força parecida com um místico Progresso, com P maiúsculo, em ação no mundo. Quando uma sociedade progride em alguns aspectos, geralmente ela está decaindo em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade sadia é influenciada por duas forças, que Samuel Taylor Coleridge chamou de Conservação e Progressão (Permanence and Progression). A Conservação de uma sociedade é formada pelos interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade; sem esta a Conservação as fontes do grande abismo se dissolvem, a sociedade resvala para a anarquia. A Progressão de uma sociedade é aquele espírito e conjunto de talentos que nos instiga a realizar uma prudente reforma e aperfeiçoamento; sem esta Progressão, um povo fica estagnado. Por isto o conservador inteligente se esforça por reconciliar as reivindicações da Conservação e as reivindicações da Progressão. Ele pensa que o progressista e o radical, cegos aos justos reclamos da Conservação, colocariam em perigo a herança que nos foi legada, num esforço de nos apressar na direção de um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em suma, é a favor de um razoável e moderado progresso; ele se opõe ao culto do Progresso, cujos devotos crêem que tudo o que é novo é necessariamente superior a tudo o que é velho”.

“O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer”.

“Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservado cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação.”

Uma vez feito esse importante parênteses, retornemos a nossa análise geral.

Quando uma crise econômica se avizinha, com ela também encontramos seus pares, a educação começa colapsar de maneira que significativo número de pessoas deixa de participar das questões relacionadas à organização de seu próprio país, tornando essa nação sujeita a manipulação ideológica, fator esse que agrava todas as crises e diminui o poder criativo das pessoas de superar momentos difíceis com medidas bem gestadas e desapaixonadas.

O subdesenvolvimento associado à crise engendra o discurso de ódio, é facilmente observável que em nosso país uma onda de discursos toma corpo; discursos esses que têm por núcleo a revolta sem lastro, de uma origem duvidosa e sem uma direção clara.

É necessário que notemos um crescente cerceamento de direitos através dos quais o governo notadamente esgotado visa superar sua insuficiência: é com frequência que sufoca o direito de iniciativa econômica, que não é um direito dispensável, e o faz não só em escala individual, mas, singularmente, também no tocante ao bem comum.

A história registra e nós devemos prestar ouvidos a ela, que a limitação, a restrição desse direito em nome de uma vaga “igualdade” de todos os membros da sociedade, colabora para a redução e mesmo a exclusão absoluta do espírito criativo, disso não surge um progresso verdadeiro, mas uma escada decrescente de uma falsa igualdade que assimila a submissão, a dependência e o comodismo ao aparato estatal que vai assumindo o poder de “dispor” e “decidir” sobre a totalidade dos bens e dos meios de produção. Essa dependência não difere daquela em que o operário se vê envolvido no capitalismo e não resulta em nenhum outro caminho se não naquele que empele os homens ao desespero e os faz abandonar sua pátria para irem àquelas onde melhores condições para seu desenvolvimento enquanto pessoa-humana seja apresentado, e esse movimento imigratório não pode deixar de levar consigo uma esperança de dias melhores e um problema à nação anfitriã relacionado a sua responsabilidade enquanto provedora de seus filhos e de seus irmãos desesperados simultaneamente.

Toda espécie de totalitarismo esconde a permissão a usurpação do poder por parte de um grupo, nestas condições, se inverte a relação natural de representatividade e direção da sociedade, assim, deixa de ter valor à palavra de homens empenhados em lutar através de meios artificiais e escusos para se apossar do poder, afinal, relegam-nos a categoria de meros objetos de suas manobras.

Devemos colocar o desenvolvimento dentro de seu potencial equilibrado, não outra é finalidade do aparato social, se não ofertar melhores condições do homem desenvolver-se dentro daquilo que é próprio de sua condição, ou seja, a razão, mas não a razão fria e sistemática, mas a razão elevada que não se desvincula da dignidade da pessoa humana. Queremos refletir sobre a existência verdadeira de progresso quando a liberdade religiosa se encontra constantemente em ataque por um ateísmo proselitista, ou quando a falta de educação impede a participação dos cidadãos nas medidas que lhe importam enquanto tal na administração do seu país, ou quando existe uma privação crescente ao acesso dos bens mais básicos de cada homem, ou quando há restrições à liberdade de desenvolvimento individual no campo econômico.

Em vista de todos esses fatores, será que podemos declarar que o desenvolvimento contemporâneo é adequado quando direitos basilares como esses passam despreocupadamente como insignificantes?

Vivenciamos um ponto de crise tão avassalador, que todo o aspecto humano é reduzido a palavra “economia” e disso resulta, dia após dia, numa retraição de todas as conquistas nos campos da cultura, da política, dos direitos e também, como não poderia faltar, da própria economia e por fim do desenvolvimento. Sem dúvida, de um problema de ordem, caminhamos num constante regresso. Como podemos conceber essa limitadora perspectiva sem nos comprometermos moralmente com o anseio de tornar menos duros os desfechos dos caminhos até aqui observados?

É comum de administrações medíocres que se proclame como grande conquista a existência de subempregos que se julgam muito “melhores” que o crescente desemprego, que assola não só nosso país, mas também significativa parte do mundo. A explosão do crescimento demográfico de alguns povos não acompanhado pelo crescimento do número de empregos; a indústria vai usufruindo cada vez menos de homens para produzir mais, se por um lado poderia alimentar mais bocas, menos bocas conseguem acessar esses bens, em contrapartida uma diminuição demográfica de gravidade nunca antes experimentada, assola todo mundo ocidental e ameaça a própria existência das culturas, mesmo assim o trabalhador qualificado muitas vezes falta, fruto da absoluta desestruturação das bases educacionais em muitos países.

Isso acarreta uma absoluta degeneração da pessoa-humana, que perde a noção de seu próprio valor, cedendo constantemente a um mundo promiscuo, sujeitando-se sem perceber a imposições cada vez mais desumanas oriundas de uma organização social cada dia mais alheia a sua dignidade inerente.

Em tal sorte de condições a vida aparenta falsamente uma perda de valor e de tão mal que vão as coisas, muitos governos anseiam e promovem desrespeitosamente e mesmo criminosamente a diminuição da população a fim de criar um aparente desenvolvimento da economia para a população que uma vez diminuída tem uma falsa sensação de fartura com o excedente que antes era requerido.

Nesse tempo de uma grande interdependência de todos os povos, precisamos encontrar a maneira mais adequada de manter viva nossa cultura, uma vez que muitas demandas contrárias a ela se revestem de uma espécie de “aura intocável” que permeando entre as classes literárias da pátria, resulta na desfiguração de todo o sistema de pensamento engendrado segundo nossas raízes históricas. O motivo principal para retornarmos com carinho e empenho a essa questão, devemos ao fato da necessidade que temos de proteger os elementos basilares de nosso pensamento que engendraram nossas concepções de filosofia, de justiça e de arte, sem as quais, não poderemos fortificar as instituições cujo fortalecimento representara à possibilidade de antepor diante das ameaças à democracia, uma verdadeira barreira.

Outro problema contemporâneo do qual não se deve desviar o olhar consiste na problemática ambiental, muito se tem feito para preservação da natureza, muitas medidas restritivas se têm colocado as nações, entretanto, não podemos negligenciar dois problemas que se avizinham com relação às medidas contemporâneas que visam à criação de um desenvolvimento sustentável. Isto é, em primeiro lugar, as relações torpes e fraudulentas que se manifesta nos trabalhos de preservação ambiental que muitas vezes são apenas disfarces de intenções escusas, e o segundo e mais importante, que se refere ao homem, isto é, o que cabe ao homem como parte da ecologia e não apenas como o agente protetor dela? Quais são nossas garantias enquanto espécie? Qual é nossa dignidade diante de outras espécies animais? Ao que parece essa dignidade tem sido reduzida a ultimo grau, portanto, nós desejamos olhar para o mundo e sua preservação, entretanto, enquadrando o homem naquilo que há de mais sublime no todo ecológico, com o fito único de fazê-lo galgar na sua dignidade inerente, que esta não só na preservação de seu meio, mas no desenvolvimento integral de si mesmo.

Sabemos certamente a grande quantidade de problemas que assolam nosso país, poderíamos enumera-los aos milhares, mas isso não seria desleal ao povo brasileiro? Creio que sim, visto que nosso povo sempre deu as melhores e maiores demonstrações de seu caráter alegre, construtor e democrático ao longo de sua história.

Desejamos traçar caminhos e trabalhar neles, desejamos apresentar ao povo medidas condizentes com a realidade e com sua vocação histórica. Não é necessário que mobilizemos nossas mentes e talentos para compor mais ataques do que os que já existem, o que se faz realmente necessário é entregar ao povo algo concreto e esse concreto deve ser uma luz condutora, um mar de candeias claras, não é preciso desgastarmo-nos em debates “corruptos, corruptores e vítimas”, enquanto povo estamos fartos dessa deplorável situação. A nós cabe trabalhar e apresentar a melhor proposta, para que com atitudes claras e passos definidos de um andar constante e de cabeça erguida, possamos transpor com segurança o lamaçal das paixões sorrateiras. Desejamos que o movimento seja parte dessa história de coragem e criatividade que noutros tempos o brasileiro sempre demonstrou nos momentos de dificuldade, e fazemos isso com os votos mais sinceros e a consciência mais viva de que basta que uma pequena luz se ascenda para que todos os homens presos na escuridão encontrem o caminho que lhes guiará a um futuro mais promissor, ao menos, tanto quanto seja correto e possível nessa vida.

Moises J. Lima