O que se esconde por trás da Baleia Azul

Faz alguns meses escrevi um artigo explicando o fenômeno social do suicídio e outro considerando a depressão como uma epidemia. A relação estreita que existente entre depressão, automutilação e suicídio ganhou um novo elemento: o sadismo.

Desde poucos dias atrás veio à tona um “jogo” que tem alarmado o mundo inteiro e dificilmente vamos encontrar uma pessoa que não saiba do que se trata, mas para deixar as coisas bem esclarecidas, vou resumir a dinâmica da situação:

Um reduzido grupo de pessoas – aqui me atrevo a dizer que são pessoas sádicas com inúmeros transtornos mentais que sentem prazer ao ver o sofrimento alheio – convidam, através de redes sociais, certo número de adolescentes a participar de uma serie de desafios. Estas escolhas não são feitas de maneira aleatória, os curadores (como são chamadas as pessoas descritas nas linhas anteriores) analisam o perfil de cada candidato nas redes sociais na procura de adolescentes vulneráveis, já que tais propostas não funcionam com aqueles que mantem fortes laços com a vida, tem bom relacionamento com os pais e crenças espirituais bem definidas.

Os desafios consistem em 50 passos que incluem a automutilação, saídas noturnas para realizar atividades perigosas (como se pendurar no alto de um telhado ou no meio de uma ponte), assistir filmes psicodélicos ou de terror durante a madrugada e episódios que causam danos a terceiros (dar balas envenenadas para crianças, matar animais domésticos), após cumprir cada uma delas, a pessoa deve mandar uma evidencia (foto ou vídeo) para o curador e este irá avaliar como válido ou não o desafio e passa-lo para o próximo estágio, sempre com a ameaçada de fazer algum dano aos familiares ou pessoas próximas.

Existem três aspectos que mais me chamam a atenção em toda essa situação e, para mim, são as melhores explicações do porquê essa serie de desafios tem sido tão atraente para os adolescentes:

1º Depressão

Cada vez mais cedo as pessoas têm desenvolvido e manifestado os sintomas depressivos. É um transtorno que afeta as quatro dimensões do ser humano: física, psíquica, social e espiritual (quem quiser saber mais é só ler o artigo “Vamos falar sobre a Depressão”). Ela altera o fluxo do desenvolvimento normal da pessoa e nela abundam os pensamentos negativos acompanhado de expressões pejorativas sobre si mesmo.

Atualmente, desde os inicios da existência de uma pessoa, ela passa por situações demasiadamente traumatizantes, somadas aos descasos das pessoas que prometeram cuidá-las, isso faz que o crescimento dos índices de depressão juvenil tenha aumentado ano após ano.

Os “curadores” detectam tais sintomas manifestados nas redes sociais e sabem muito bem como chegar até o adolescente mediante seus pontos de fraqueza. Esses curadores parecem serem “experts” nesse quesito, já que a maioria ignora essas chamadas de atenção virtual, mas diante deles, nada passa batido.

2º Identificação

Existem diversos grupos nas redes sociais onde muitos jovens solicitam a sua entrada, e, uma vez dentro do jogo, publicam a afirmação #i_am_blue_whale (eu sou baleia azul). A identificação de grupo é muito relevante em casos como este, já que as pessoas procuram pares com as mesmas dores, os mesmos sofrimentos, o seu inconsciente procura não estar sozinho e saber que existem outros que como ele, passam pelos mesmos problemas. Infelizmente nesse caso, isso potencializa seus atos suicidas.

Temos também os casos de jovens que entram nesses grupos a procura de um curador que lhe oriente no inicio do jogo e são abordados por falsos curadores que se infiltram ali justamente para impedir que comecem os desafios e terminem da maneira mais trágica. Esses “anjos” – como estão sendo popularmente chamados – expressam que muitos decidem entrar no jogo por estarem sufocados por causa de seus problemas e trocando um par de palavras, conseguem faze-los entender a importância de procurar uma ajuda real para passar por tais dificuldades.

3º Descaso dos pais ou responsáveis

Como descrito anteriormente, antes de chegar ao suicídio, os jovens precisam primeiro passar por 49 desafios. O jogo já começa com o provocar cortes nas mãos, seguidamente nos braços e pernas, perfurações nos lábios e afins. Esses primeiros indícios já indicam a presença de um problema e um pai que não vê que seu filho aparece com cortes é mais anormal que um adolescente que se automutila.

Para que uma pessoa decida entrar em um jogo suicida, é sinal que algo não anda bem dentro da família e não basta apenas cortar o acesso ao uso da internet (como mencionado por alguns), essas pessoas podem começar com os cortes como forma de pedido de ajuda, onde abafam esses gritos na esperança que seus cuidadores percebam esses sinais tão explícitos manifestados durante quase dois meses.

Como toda situação ruim tem seu lado positivo, posso afirmar que o jogo da Baleia Azul deu a oportunidade de muitas pessoas abrirem seus olhos para o problema da depressão, carências afetivas, e da falta de empatia da atualidade.

Vejo muitas pessoas que rapidamente entenderam que o real problema não está no jogo ou nos administradores que apresentam o jogo para esses adolescentes, mas na falta de resiliência que deveria ser adquirida dentro dos laços familiares e fortalecidos através do amor.

Não sejamos, nós, indiferentes ao problema caso não tenha uma baleia azul para ser culpada. Hoje é a pobre baleia, o que virá amanhã não sabemos, mas sim, que se continuarmos alheios aos indícios de depressão e falta de afeto, poderemos ter vidas nas nossas contas que poderiam ter sido salvas se tivéssemos ao menos, tirado cinco minutos para escutar os seus problemas.

 

Kellin Borges (Paraguaya), Psicóloga e articulista no site do Somar.

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