Sabes o motivo de não gostar do folclore brasileiro?

Texto cedido por  -MIL MAMELUCO

Eu vou te explicar passo por passo. Muito provavelmente, os motivos que levam você a não gostar são os que me levavam a não gostar e eles já vem praticamente do nosso berço. Recorde, qual foi seu primeiro contato com folclore brasileiro? Vamos lá, recorde!

Para muitos, foi na escolinha, colorindo sacis, mulas sem cabeça, lobisomens e curupiras sorridentes. Isso é ruim? De forma nenhuma, mas continuemos. Posteriormente, tínhamos na TV a série da Globo, o Sitio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Isso é ruim? Também não.

Sabe qual foi o problema, que desencadeou nossa ignorância para a mitologia nacional? Foi que os vislumbres de mitos nacionais começavam na infância e paravam por aí. O trabalho não foi feito por completo, entende?

Foi legal a infância, mas não tinha nada pra adolescência, e nada sério para a fase adulta. Não foi nos ensinado sobre eles com seriedade no ensino médio, não jogamos RPG’s com temáticas desse tipo, não assistimos filmes nem seriados bons com eles, nem lemos quadrinhos.

Tudo que conhecíamos sobre o saci era “um carinha preto, que fuma e azeda o leite”, sobre Curupira “uma criança de pés virados, que engana os caçadores e protege a natureza”. Os mitos que conhecíamos eram restritos, e não completariam as duas mãos se contássemos.

Vamos lá, eram esses Cuca, Saci, Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Caipora, Boitatá, quando muito, um Mapinguari, graças ao Cata Lendas “morria de medo”. Agora, pare pra pensar comigo, você acha mesmo que poderia ser mostrado o folclore nacional, em sua complexidade, para crianças? As raízes dos mitos, como eles eram e se comportavam, além dos desenhos, e da série de tv? Se fizéssemos isso, colocaríamos crianças diante do inferno e da morte, de temas sexuais, canibalismo e muitas formas de violência.

O Curupira

Pois vou resumir: Em uma das histórias de Saci ele é um demônio fugindo do inferno em um dia que o diabo estava fazendo uma festa de forrobodó e os guardas ficaram bêbados, e isso é um relato presente em um livro de Lobato, não direcionado para crianças, claro. A primeira menção a Curupiras é a visão binária de São Jose de Anchieta, onde eles são demônios de grande força física, que espancam os índios que não lhes dão certas oferendas. Isso claro, está ligado à catequese da época, e ao etnocídio nativo, mas eu adoraria ter tido essa informação no ensino médio ou em qualquer faze da adolescência. Vamos falar um pouco sobre a obra de Monteiro Lobato.

Peguemos O Saci, um livro que gosto bastante. Vocês já imaginaram ler para crianças um livro onde um saci revela para um menino, Pedrinho, que um dia, ele vai morrer? E Pedrinho fica triste, transtornado, pois se toca do óbvio e da fragilidade da vida. Ele vai morrer. Então o Saci, com certo humor, tenta explicar a vida e a morte de outra forma, dizendo que a vida é uma fada, que uma hora, abandonará seu recipiente, mas que continuaria voando por aí, existindo.

No mesmo livro, a mula sem cabeça original era uma rainha que… praticava canibalismos num cemitério. Se liguem na frase que vou escrever agora: “A mãe do medo é a incerteza, e o pai do medo é o escuro. Enquanto houver escuro no mundo, haverá medo. E enquanto houver medo, haverá monstros como os que você vai ver.” Cara, isso poderia estar sendo dito num livro de religião, ocultismo ou filosofia, mas está num livro infantil e é dito pelo saci a Pedrinho. Mas esses diálogos não foram para a série, lógico.

A visão sobre o que uma criança pode consumir mudou do século XX para o XXI. Sem falar que os recursos para algo visual são limitados, a mula sem cabeça nunca correu majestosa na série, e o saci não tinha as mãos furadas, o pouco tamanho e os olhos vermelhos. Outro problema, além de desconhecermos esses mitos que achamos conhecer (Saci, Curupira), é que também achamos que eles são os únicos. Temos a ingenuidade de acreditar que um país de proporções continentais, que possuía incontáveis culturas nativas e deuses, que foi colonizado por portugueses e esses trouxeram os africanos, se restringe culturalmente a uma quantidade de criaturas que nem completa as duas mãos. Já ouviu falar da Maragigoana (mito ligado à morte), ou da Não se Pode, ou do Arranca Línguas?

Em resumo, se você gosta de mitologia, fantasia, mas não gosta de folclore nacional, considere que, talvez, informaram muito mal você sobre essa temática.

 

 

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