A ONTOLOGIA DA ARGUMENTAÇÃO

Uma defesa do Argumento Ontológico de Santo Anselmo à luz da Filosofia Concreta e simpatizantes

 

Por Vitor Matias

 

Redijo este pequeno texto por vários motivos: o primeiro e principal, como exercício de argumentação e exposição frente às minhas recentes leituras(logo, não levem isto aqui com o rigor de um artigo científico); e de modo secundário, para talvez elucidar os curiosos acerca do argumento ontológico. O argumento ontológico, primeiramente formulado por Santo Anselmo em seu Proslogion normalmente chega a nós por outras mãos, na formulação de Kurt Godel, Alvin Plantinga, René Descartes, Immanuel Kant, entre outros. Não é meu objetivo aqui dar ao leitor uma análise histórica das formulações (ou corrupções) propostas do mesmo argumento por vários autores, nem fazer uma crítica àqueles que julgo terem feito mal julgamento acerca do mesmo, mas apenas construir uma defesa do argumento inicial formulado por Santo Anselmo, fazendo uso dos comentários de Mário Ferreira dos Santos e outros defensores, que chamo de “simpatizantes”; a título de curiosidade, nestes, incluo Duns Scotus e Louis Lavelle.

 

PRIMEIRA PARTE – SANTO ANSELMO, O ONTOLOGISTA INCOMPREENDIDO

 

É de suma importância expormos o argumento de Anselmo como dado no Proslogion, e assim se dá no Capítulo 2 da seguinte maneira: a primeira menção é feita quando Anselmo diz que o credo prescreve que acima de Deus, nada pode ser concebido ou pensado[1]; em seguida, deixa claro ao leitor de que se trata de saber acerca da existência de Deus.  Na página seguinte, descreve que todos entendem o que se quer dizer com um ser acima de todos, e faz a interessante afirmação de que, tal noção está na inteligência do insensato mesmo que tal não creia[2] na existência do objeto em questão. Em seguida, faz distinção, ao escrever que uma coisa é ter a idéia de um objeto qualquer, e outra é crer em sua existência,[3] dando o exemplo de que um pintor, ao pensar no quadro que irá pintar, sabe que a figura que quer pintar não existe em outro lugar a não ser em seu intelecto. Em seguida, nos apresenta o grande ponto de discórdia; diz que, sem dúvida, um objeto acima do qual não se pode pensar nada maior, não pode ser apenas no intelecto, caso contrário, não seria[4].  Portanto, o objeto acima de todos deve existir necessariamente.

No capítulo 3, Santo Anselmo diz que tal é evidente, pois tal ser não pode ser pensado como não existente[5] na realidade, e aqui as armas do argumento começam a aparecer. Logo, o ser que não pode ser inexistente deve ser o maior de todos, logo, é Deus.  Nos capítulos posteriores, o argumento é esclarecido, e passa-se a falar das propriedades de Deus. Aqui iremos falar de algumas na medida em que forem necessárias ao bom entendimento do caso.

 

SEGUNDA PARTE – ONTOLOGIA, PARA QUÊ TE QUERO?

 

Anselmo nos alerta de que uma coisa é pensar em algo quando se pensa na palavra que o designa; outra é a inteligência entender o que aquilo é[6]. Então, seguirei tal conselho e procurar elucidar porque o argumento ontológico merece tal nome.

Ele nos dá algumas propriedades de Deus ao expor o argumento; que ele é um ser, um ser que deve ser maior que todos, onde o maior refere-se à propriedade de não poder ser pensado como não existente. Aqueles que como aquele que vos escreve tem apreço especial pelo tema, notam que um ser deve ser ou por si, ou por outro, e um ser que não pode ser pensado como não existente não pode ser por outro; aqui, escondida na linguagem que refere-se apenas como “maior que todos”, está o significado de ser necessário.

Mário Ferreira dos Santos teve especial preocupação ao iniciar sua Filosofia Concreta quando esconde o ser necessário em seu dito alguma coisa há[7]. O “alguma coisa” não é mais do que o transcendental Aliquid, a saber, transmutável (convertível) com os outros quatro, Verum, Bonum, Res, Unum. Ontologicamente, não faria diferença entre iniciar o livro com “alguma verdade há”, “algum uno há”, ou semelhantes; fica a curiosidade que, como tanto coisa (res) como alguma (algo, aliquid) são transcendentais, a frase tem dois deles.

Alguma coisa verdadeira, una, boa, seria um modo cômico de iniciar também.

Em seguida, nosso filósofo brasileiro parte para análise desta que deve ser uma verdade incontestável. Incluso nesta pequena frase, o ser necessário se mostra de forma sutil; na aceitação de que algo há, admite-se uma verdade não ao nível lógico que estamos acostumados, a verdade lógica, enquanto aceitação do conformismo do que apreendemos como o que há, mas, como explicado na mesma obra, admitimos uma verdade necessária que é a condição de possibilidade para nossa própria existência; em suma, tratamos do ponto arquimédico cuja certeza ultrapassa ao nosso conhecimento, independente de nós[8].

Demonstrar é tornar evidente uma proposição por comparação à outra, o que implica algo dado anteriormente como correto; assim é o método corrente, que dará força ao argumento da impossibilidade da causalidade infinita, que embora não seja o caso, nos leva à Tese 4 da Filosofia concreta onde Mário nos diz o que já foi dito tantas vezes na história da filosofia; quando escreve: “a demonstração exige o termo médio, a mostração, entretanto, não o exige[9]”. Mostração é o nosso famoso constatar; admitir a evidência que impõe-se por si, visto que sua não aceitação nos leva a absurdos, como negar nossa própria existência, negar qualquer conhecimento possível, entre outros non sense tão comuns. Aqui, no caso, trata-se da evidência cabal da existência do ser, dito de forma explícita no “alguma coisa há”.

Aos murmurantes que protestarem contra à demonstração, deixo-lhes uma bronca dada por Aristóteles:

 

‘[…]já postulamos a impossibilidade de simultaneamente ser e não ser, e por este meio demonstramos ser esse o mais certo de todos os princípios. Alguns, realmente, exigem que mesmo isso seja demonstrado, o que acontece por faltar-lhes educação [em lógica], pois indica falta de educação [em lógica] ignorar do que devemos exigir demonstração e do que não devemos. É absolutamente impossível haver demonstração para tudo, visto que o processo iria ao infinito, de sorte que mesmo assim não haveria nenhuma demonstração. Se, por outro lado, há algumas coisas cuja demonstração não precisa ser feita, eles são incapazes de declarar qual princípio consideram mais indemonstrável do que aquele em pauta. Mesmo no caso dessa posição, entretanto, estamos capacitados a demonstrar a impossibilidade mediante refutação, bastando para isso que nosso opositor emita alguma afirmação. Se ele não se pronunciar, seria um despropósito buscar um argumento contra alguém que não tem argumentos próprios acerca de nada, na medida em que se recusa a raciocinar, e essa pessoa, como tal, realmente não é melhor do que um vegetal[10]”.

 

Louis Lavelle inicia A Presença Total com o dizer de que há uma experiência implícita em todas as outras, e que desta mesma experiência participa o cognoscente. O alguma coisa há aponta o “algo”, ou transcendental aliquid, uma das propriedades do ser. Todos os transcendentais são convertíveis, então estamos falando do ser enquanto ser, este que “é”. A experiência mencionada por Lavelle enquanto parte de um todo refere-se à primeira nota da apreensão humana, que na filosofia clássica é o ser[11]. Mário e Lavelle falam da mesma coisa; a experiência apreende o ser, e o apreensor da experiência também é ser. Ao reconhecer isto, (afinal, o ser é per se notum) reconhecemos que estamos inseridos no ser.

Usando isso como base, Lavelle afirma que é próprio do pensamento filosófico agarrar-se ao ser e afirmá-lo, sob pena de perder-se na miríade de seus próprios devaneios e esquecer-se da fonte de onde tudo emana, do próprio ser. É próprio do pensamento filosófico “analisar o seu conteúdo e mostrar que todas as nossas operações dependem dela [da experiência do ser][12]”.

 

A palavra “experiência” que usamos aqui não é dita no sentido empirista, nem se identifica com a “experiência possível” kantiana ou com uma “realidade” a que chamam apenas física. A experiência do ser é dita no mesmo sentido de Avicena e Santo Tomás, que penetra nos mais profundos estágios da realidade, o ser enquanto evidente.

Quando Santo Anselmo diz que o insensato tem a idéia, ou melhor, a noção de ser mesmo que não creia, está falando disso; o ser há antes que se argumente sobre ele. O argumento é ontológico porque não se baseia em premissas logicamente colocadas, mas trata da intuição do ser em toda a sua evidência.

 

TERCEIRA PARTE – EM DEFESA DE SANTO ANSELMO: OS MAIORES ARGUMENTOS ESTÃO NOS MENORES LIVROS.

 

Enfim, chegamos ao ponto capital; defendamos Santo Anselmo de seus detratores, e por mais que nos doa, defendê-lo de seus próprios defensores, por melhores que tenham sido suas intenções.

Primeiro, elucidemos, em que sentido Santo Anselmo nos diz que o ser maior é Deus; ora, diz no sentido de ser necessário e primordial, como dito; mas, após constatarmos o ser, é necessário que haja um ser necessário? Acima, fizemos a distinção entre seres por si e por outro (a própria constatação de nossa contingência revela a distinção); todos os seres ônticos (seres aqui, determinados) são contingentes, são seres em outro; para que eles hajam, é necessário que haja o primordial; visto assim, o argumento cosmológico, que contém a impossibilidade de causas infinitas retroativas está incluso no argumento ontológico. Se aceitarmos ainda movimento no sentido da moção ser causável, a via do movimento tomista inclui-se também aqui; mais ainda, se tomarmos que o ser por si é mais perfeito do que qualquer ser por outro, o que é patente, diz-se que a via da perfeição tomista inclui-se também aqui, assim como a via dos contingentes e do necessário. Quando diz que uma coisa é ter a idéia de um objeto qualquer e outra é crer em sua existência, anula que o ser em questão seja uma idéia apenas, pois, ele não é idealizado, como a figura no quadro, ele é apreendido enquanto constatação dos seres em geral, e quando especificado como “maior que todos”, aponta-se ao primordial. Assim, não se pensa e depois se crê na existência, como dizem os detratores mais simplórios, mas, não se trata de idealização ou coisa do tipo, trata-se de uma noção per se nota. No capítulo 3, quando Santo Anselmo diz que tal ser não pode ser pensado como não existente, nos ajuda a entender que o ser “maior” deve ser chamado de “necessário”.

Intuição explicitamente defendida por Lavelle, quando este diz em A Presença Total o seguinte:

 

É contraditório que a idéia simples do ser possa ultrapassar o ser, porque nada o ultrapassa, ou ser ultrapassada por ele, porque ela própria o contém; ela desempenha, pois, com respeito a ele, ao mesmo tempo o papel de continente e o de conteúdo; há entre ela e seu objeto uma espécie de reciprocidade, o que quer dizer que ela é de todas as idéias a única que é ao mesmo tempo uma intuição[13].

 

É preciso deixar claro que o Argumento Ontológico não pode ser reduzido à forma meramente lógica, como fazem seus defensores e detratores na tentativa de tornar o mesmo mais ou menos rígido, com boas ou más intenções; não é a intenção aqui julgar tal coisa, apenas expor o que foi feito. Vê-se que não há aqui adequação entre pensamento e realidade, o que exclui prova de veracidade lógica, ou melhor, exclui qualquer adequação; assim, não se demonstra o ser, apenas mostra-o. Não tratamos da veracidade da argumentação (como se procede na lógica), tratamos de uma noção primordial e suas consequências, por assim dizer. Podemos aumentar o argumento utilizando-nos das explicações de Mário Ferreira, em Filosofia Concreta[14]: como dissemos, na verdade lógica, conformamos o intelecto à coisa; mas, na ontológica, ocorre o contrário, da coisa com o intelecto; daqui, podemos retirar o nosso per se notum, o primeiramente notado. A verdade ontológica ocorre por revelação, no sentido de notar-se primariamente; pode ser vista na medida em que corre via análise (juízo analítico) intrínseca da coisa (a coisa é ser). Todas as verdades lógicas são juízos sintéticos. O mesmo Mário, no Tomo II da Filosofia Concreta, ao comentar o mesmo argumento que ora defendemos, diz que, se o argumento fosse realmente lógico[15], a acusação de salto da razão à realidade se daria. Reproduzo aqui a argumentação do nosso filósofo:

 

O argumento de Santo Anselmo era ontológico e não lógico. Se fosse apenas lógico, haveria razão de afirmar que nele havia um salto indevido de uma esfera para outra, da lógica para a ontológica. Mas, na verdade, o seu raciocínio pairava sobretudo na esfera ontológica, embora partisse, como não podia deixar de ser, da conceituação humana, mas para alcançar uma conceituação ontológica, que só pode ser o que é (monovalente, portanto).

 

Ademais, não podendo ser em si uma potência, a possibilidade que nossa mente capta do majus leva-nos a reconhecer que êle necessariamente existe.  Como poderia o menos conter o mais? Partimos, não há dúvida, da não contradição entre o majus e o que é contingente e dependente de nossa experiência. Restaria apenas um ponto objetável: que erramos ao admitir a sua possibilidade. O majus não seria possível, mas impossível. Emprestaríamos possibilidade a uma ficção nossa.  Resta, então, examinar se é realmente uma ficção. Conceituamos o majus por oposição ao contingente, diriam. Mas, na verdade, verificamos pelas operações iterativas ontológicas, que o ser independente e omniperfeito é absolutamente necessário.  É a nossa mente que pode julgar que é possível, embora seja real extra mentis. Mas, pelos caminhos da dialética ontológica, sua necessidade esplende, não por razões nossas, mas pela própria glória do ser.  Já vimos que só há contradição ao ser quando a sua afirmação implica a negação da sua natureza.  E a contradição do ser é o nada.  Dizer-se que um ser é omniperfeito, não é predicar-lhe o nada. O verdadeiro conceito ontológico de possível é o que pode ser, e não o que pode ser e pode não ser.

A interação dialética ontológica mostrou-nos que o Ser Supremo pode ser. Não podemos dizer dele que pode e pode não ser, porque o não poder ser dele é absurdo, como vimos. Êle só pode ser e, porque só pode ser, é.

 

Sendo ele necessário, prova que pode ser, e repele o poder não-ser.

 

O majus é o ser omniperfeito e independente. Se se admite um ser que não é omniperfeito e independente, ele não é o majus. Além disso, haver um ser que contenha toda a perfeição de ser, e que não venha de outro, não é uma possibilidade (pois como possibilidade é captado num estágio ainda primário da nossa operação psíquica), mas é uma necessidade absolutamente simples, é simpliciter absoluta. Não pode não-ser, é impossível que não seja, como vimos pelas demonstrações anteriores. Além de não conter contradição a sua existência, a sua existência se impõe ontologicamente. Portanto, a admissão de que o majus é o ser omniperfeito, subsistente por si mesmo, independente portanto, não é apenas lógica, mas também ontológica.[16]

 

 

Assim exposto, vamos a algumas críticas.

 

QUARTA PARTE – FAILS

 

 

Muitos gostam de usar Kant contra o argumento ontológico. Mas o que diz Kant sobre?

 

Facilmente se depreende do que atrás dissemos, que o conceito de um ser absolutamente necessário é um conceito puro da razão, isto é, uma simples idéia, cuja realidade objetiva está ainda longe de ser provada pelo fato de a razão necessitar dela e que, aliás, não faz outra coisa que não seja indicar-nos uma certa perfeição inacessível, e que serve, na verdade, mais para limitar o entendimento do que para o estender a novos objetos. Deparasse-nos aqui algo de estranho e absurdo, que é parecer urgente e rigoroso o raciocínio que, de uma existência dada em geral, conclui uma existência absolutamente necessária, e serem contudo completamente adversas todas as condições que o entendimento exige para formar um conceito de uma tal necessidade.[17]

 

Após a exposição das partes anteriores, facilmente percebemos que, o conceito de ser necessário nem é puro da razão, nem simples idéia, assim como o ser não é simples idéia também; e que Kant toma o argumento como lógico quando é ontológico, como sintético quando é analítico. Fora que, na Crítica da Razão Pura, o mesmo vai tratar da causalidade em fenômenos, e não em noumenos, como faz na Crítica da Razão Prática. Usar esse argumento é inválido IN LIMINE.

 

Outros usam o argumento de Santo Tomás de Aquino contra Anselmo. Mas o que nosso santo preferido nos diz?

 

RESPONDO. Algo pode ser evidente por si de duas maneiras: seja em si mesmo e não para nós; seja em si mesmo e para nós. Uma proposição é evidente por si se o predicado está incluído na razão do sujeito. Exemplo: o homem é um animal, porque animal faz pane da razão de homem. Se, por conseguinte, a definição do sujeito e a do predicado são conhecidas de todos, esta proposição será evidente por si para todos. E o que acontece com os primeiros princípios de demonstração, cujos termos são tão gerais que ninguém os ignora: como ente e não-ente, todo e pane etc, e alguém ignorar a definição do predicado e a do sujeito, a proposição será evidente por si em si mesma; mas não para quem ignora o sujeito e o predicado da proposição. Por esse motivo, diz Boécio, existem conceitos comuns do espírito evidentes por si apenas para os que as conhecem, como esta: as coisas imateriais não ocupam lugar.

 

Digo, portanto, que a proposição Deus existe, enquanto tal é evidente por si, porque nela o predicado é idêntico ao sujeito. Deus é seu próprio ser, como ficará claro mais adiante. Mas como não conhecemos a essência de Deus, esta proposição não é evidente para nós; precisa ser demonstrada por meio do que é mais conhecido para nós, ainda que por sua própria natureza seja menos conhecido, isto é, pelos efeitos.

 

Quanto ao 1º, portanto, deve-se dizer que está impresso naturalmente em nós algum conhecimento geral e confuso da existência de Deus. Isto é, Deus como a felicidade do homem, pois o homem deseja naturalmente a felicidade, e o que sua própria natureza ele deseja, naturalmente também conhece. Mas nisso não consiste em absoluto o conhecimento da existência de Deus assim como conhecer que alguém está chegando não é conhecer Pedro, embora seja Pedro que está chegando. Muitos pensam que a felicidade este bem perfeito do homem consiste nas riquezas, outros a colocam nos prazeres ou em qualquer outra coisa.

 

Quanto ao 2º deve-se afirmar que talvez aquele que ouve o nome de Deus não entenda que ele designa algo que não se possa cogitar maior; pois alguns acreditaram que Deus é um corpo. Mas admitido que todos deem ao nome de Deus a significação que se pretende: maior que Ele não se pode cogitar, não se segue daí que cada um entenda que aquilo que é significado pelo nome exista na realidade, mas apenas na apreensão do intelecto. Nem se pode deduzir que exista na realidade, a não ser que se pressuponha que na realidade exista algo que não se possa cogitar maior, o que recusam os que negam a existência de Deus.[18]

 

Mário Ferreira nos dá uma luz sobre o problema daqui:

 

Como vimos, parte-se, nas provas a priori, não de um facto da experiência, mas de uma noção, ou, segundo Tomás de Aquino, de uma causa para explicar o efeito. Apoiam-se tais argumentos no princípio de identidade.

 

Desde Platão, na filosofia grega e através de Santo Agos­tinho, e modernamente em Descartes, é aceito que dispomos de um conjunto de idéias, independentes da experiência, as quais nos permitem propor uma prova a priori de Deus.

 

Aristóteles, Tomás de Aquino e os racionalistas-empiristas rejeitam tais provas, para aceitar apenas aquelas que se fun­damentam a posteriori.

 

Nossa crítica dialética, através de nossos livros, demons­trou que a unilateralidade, tanto dos aprioristas como dos aposterioristas, surge de uma visão abstrata e não concreta da realidade, tanto das idéias como dos factos do mundo empírico, pois aquelas podem ser tratadas concretamente, como ainda veremos.[19]

 

Nosso Tomás não aceita a prova a priori e trata o argumento como lógico e cai no mesmo problema de achar que há salto lógico ali.

 

 

QUINTA PARTE – CONCLUSÃO?

 

Provavelmente o leitor espera que eu liste mais argumentos contra; todos os argumentos contra ou confundem-no com um argumento apenas lógico, ou negam a ontologia. Os a favor cometem o mesmo erro.

 

Mas e o Plantinga?

 

Sem Plantinga; não li o livro dele.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Tomás de Aquino

O Ente e a Essência. Tradução de Luiz João Baraúna. 1º edição. São Paulo, Editora Nova Cultural LTDA, 1996.

_____________. Summa Theologiae.

 

Aristóteles

Metafísica. Tradução de Edson Bini. 1º Edição. São Paulo, Edipro,2012

 

Louis Lavelle

A Presença Total. Tradução de Carlos Nougué. 1º edição. São Paulo, É Realizações, 2012.

Mário Ferreira dos Santos

Filosofia Concreta. 3º edição, São Paulo, Logos LTDA, 1961

_____________. O Homem Perante do Infinito. 3º edição, São Paulo, Logos LTDA, 1960

 

Immanuel Kant

Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Mourão. 8º edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013

 

Santo Anselmo de Cantuária

Proslogion. Tradução de Sérgio de Carvalho Pachá. 1º edição, Porto Alegre, Editora Concreta, 2016

 

[1] “Cremos, com efeito, que acima de ti nada pode ser concebido pelo pensamento. Trata-se pois, de saber se tal ser existe, porque o insensato disse em seu coração: Não há Deus.” – Proslogion p.45

[2] “[..] ele entende o que ouve; o pensamento está em sua inteligência, ainda que não creia que existe o objeto desse pensamento” – Proslogion p.47

[3] Proslogion p.47

[4] “E, sem dúvida alguma, esse objeto acima do qual não se pode pensar nada maior, não existe somente na inteligência, porque, se assim fosse, poder-se-ia supor, pelo menos, que existe também na realidade, nova condição que faria um ser maior do que ele que não tem existência senão no puro e simples pensamento” –Proslogion p.47

[5] “Porque se pode conceber um ser tal que não possa ser pensado como não existente na realidade e que, portanto, é maior do que aquele cuja idéia não implica, necessariamente a existência”. – Proslogion – p.47

[6] Proslogion p.49

[7] Filosofia Concreta p. 29

[8] Ibidem.

[9] Filosofia Concreta p.32

[10] Metafísica p.142

[11] Ver “O Ente e a Essência” de Sto. Tomás de Aquino

[12] A Presença Total p.31

[13] A Presença Total p.69

[14] Filosofia Concreta p.36

[15] Filosofia Concreta Tomo II p.53

[16] Ibidem, p.53-5

[17] Crítica da Razão Pura, p.500. A-592-B620

[18] Suma Teológica Q2 A1

[19] O Homem Perante o Infinito p. 69

Leia mais

Cartas de um anjo a seus ... Resenha do livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz” Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou
A DIGNIDADE DO ENTE RACIO... Foi-me dada a árdua tarefa de elaborar este opúsculo, onde procuramos tratar da dignidade do ente racional no pensamento kantiano. Não que seja um assunto da mais
O PARALOGISMO RELATIVISTA... Este artigo, que começou pequeno, mas revelou ser de grande importância, se propõe a servir de ponto arquimédico a todos os futuros escritos redigidos por mim e
Aspectos ontológico e gn... A filosofia verdadeira dos direitos da pessoa humana se funda na ideia verdadeira de lei natural, que tem dois aspectos fundamentais – dois modos de considerá-la –
Contestações Pragmátic... Texto cedido por Danilo Henrique, São Paulo, 28 de dezembro de 2016 Defesa da Ética Argumentativa Frente ao Mito do Dado e a Guilhotina de Hume Prefácio Escrevo
Você sabia que o Brasil ... Esse nome não é mais conhecido dos brasileiros, mas talvez tenha permanecido no ideário dos argentinos: Dom Juan Manuel José Domingo Ortiz de Rosas, o maior tirano
Os Dez Princípios Conser... Tradução de Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior Fonte: http://www.kirkcenter.org/kirk/ten-principles.html   Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não
Conferência “Hist... Sérgio Givone, formou-se em Turim com Lulgi Pareyson, Lecionou em Perugia. Turim e Florença onde, atualmente, é docente de estética na Faculdade de Letras e Filosofia. Em
Distorções ideológicas... No mundo moderno, os homens são requisitados constantemente por complexos sistemas de ideias que buscam angariar a simpatia de seus anseios mais profundos a métodos que se
A importância dos cláss... O ser humano, ao contrário do que muitos pensam, foi criado com um propósito. Atendo a isso, do ponto de vista cosmológico, qualquer pessoa que tenha ou

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *