Da Presença Total

 

Primeira Parte – Da Descoberta do Ser

 

Escrevo este pequeno texto com o sorriso no rosto de um leitor que fez uma ótima escolha ao passar longas horas lendo os escritos do Sr. Lavelle. Gostaria de deixar um pequeno agradecimento ao Sr. Olavo de Carvalho por inserir este pensador na vida de muitas pessoas, inclusive na minha.

Entre aqueles que apreciam a boa metafísica, é raro encontrar um autor que viveu depois do século XVII exprimindo suas aspirações, mas, neste singelo caso, podemos dizer que Louis Lavelle é uma dessas raridades. A Presença Total é um prato cheio, mesmo que não seja mais que um resumo da série Dialética do Eterno Presente, obra magna de Lavelle. Isto pode afugentar o leitor curioso, mas nunca o persistente; embora magistralmente densa, podendo-se retirar um infinito de informação a cada leitura, o livro revela-se gratificante, desde que se preste atenção aos termos utilizados.

O objetivo principal é clarificar a mensagem do livro, e para isso farei uso da linguagem utilizada por Mário Ferreira dos Santos por ser, de certa forma, mais didática.

Por se tratar de um comentário, é recomendável que o texto seja lido com o livro à mão.

 

  1. O Eu reconhece a Presença do Ser

 

Mário Ferreira dos Santos inicia seu Filosofia Concreta com o axioma “alguma coisa há[1]”. Lavelle inicia a Presença Total com o dizer de que há uma experiência implícita em todas as outras, e que desta mesma experiência participa o cognoscente. O alguma coisa há aponta o “algo”, ou transcendental aliquid, uma das propriedades do ser. Todos os transcendentais são convertíveis, então estamos falando do ser enquanto ser, e ele “é”. A experiência mencionada por Lavelle enquanto parte de um todo refere-se à primeira nota da apreensão humana, que na filosofia clássica é o ser[2]. Ambos falam da mesma coisa; a experiência apreende o ser, e o apreensor da experiência também é ser. Ao reconhecer isto, (afinal, o ser é per se notum) reconhecemos que estamos inseridos no ser.

Usando isso como base, Lavelle afirma que é próprio do pensamento filosófico agarrar-se ao ser e afirmá-lo, sob pena de perder-se na miríade de seus próprios devaneios e esquecer-se da fonte de onde tudo emana, do próprio ser. É próprio do pensamento filosófico “analisar o seu conteúdo e mostrar que todas as nossas operações dependem dela [da experiência do ser][3]

 

Mas não é tarefa fácil isolar o ser em sua “pureza”, e aqui Lavelle se refere ao ser enquanto ser, não a um ser em particular, aquele que normalmente chamamos de ente. Saber que esse ser existe não é apreendê-lo em sua plenitude. Aqui faz-se uma pequena referência à nossa finitude em comparação ao ser total. O autor ainda critica aqueles que não conseguem aprofundar-se no ser e não lhe dão a atenção merecida: “não o sentem, antes pressentem sua presença.”

Mas aquele que já apreendeu o ser como “ato mesmo da vida” já não pode mais sair desta condição. É característico dos escritos de Lavelle serem imediatamente apreensíveis após a leitura, o que pode ser uma experiência divertida esta possibilidade de aplicar tudo o que se lê no mesmo instante e constatar que “é isso mesmo o que ocorre”. Este trecho não é diferente, e todos os que se aventuraram pela ontologia podem verificar em seus próprios pensamentos o quanto a noção de “ser” modificou sua visão de mundo, como as inúmeras discussões acerca do “status ontológico do não-ser” se tornaram inúteis. Apreender o ser, mesmo que não em totalidade, é o referido ato mesmo da vida, pois nós somos vivos pelo ser e existimos na medida em que somos com ele; não estamos separados dele, e essa percepção nos traz uma miríade de consequências que serão tratadas no decorrer do livro. Isso se evidencia no dito de Lavelle: “[a experiência do ser] contém em si tudo o que se deve conhecer[4]”.

A palavra “experiência” que usamos aqui não é dita no sentido empirista, nem se identifica com a “experiência possível” kantiana ou com uma “realidade” a que chamam apenas física. A experiência do ser é dita no mesmo sentido de Avicena e Santo Tomás, que penetra nos mais profundos estágios da realidade, o ser enquanto evidente.

 

Lavelle diz que tal experiência nos conecta com o coração do real; ora, este é o ser, e descobrindo sua atualidade em cada um dos nossos passos, sua identidade se faz cada vez mais presente.

 

Assim se encerra o primeiro capítulo.

 

 

  1. A vida do espírito é uma cumplicidade com o ser

 

           

            “Descrever os termos desta primeira experiência pela qual o eu se inscreve a si mesmo no ser e mostrar a relação que os une, é prosseguir uma ação dialética que, sem nada acrescentar a essa experiência, permite medir-lhe a riqueza e a fecundidade.[5]” Aqui se iniciam aquelas frases que, à primeira vista, podem fazer com que o estudante leigo entre em uma crise existencial; mas entender seu significado não é um monstro de sete cabeças. Após o primeiro tópico, sabemos que o eu está incluso no ser, e prosseguir na descrição de como isto se dá não adiciona nada a esta experiência a mais do que ela já contém. Afinal, o ser já possui virtualmente todas as possibilidades; é um dos motivos pelos quais o não-ser é absurdo: este representa, de certo modo, a impossibilidade ontológica. As etapas dessa pesquisa do ser não são puramente especulativas, e aqui temos mais um trecho curioso. Lavelle diz que “o próprio eu constitui sua própria natureza no curso desse debate permanente com a consciência, para nascer e desenvolver-se, mantém com o ser absoluto[6]”. Ora, o ser contém sua própria natureza evidentemente, mas o “debate com a consciência” torna as coisas obscuras, pois pode sugerir que a consciência seja algo separado do eu; isto, no entanto, não ocorre. O eu de Lavelle contém em si a consciência, esta que é constantemente modificada perante as notas apreendidas da realidade. Uma boa imagem disso é vista no livro O Mal e o Sofrimento:

 

“É a consciência, ao menos aparentemente, que faz de cada indivíduo um ser invisível e solitário, pois ela é o recolhimento em si e cerco perfeito. Meu corpo, ao contrário, parece dar testemunho de mim; é a figura de meu ser que é entregue aos outros seres; mostra-lhe o que sou; é ele que, pela palavra e pela ação, me permite alcançá-los e constituir sociedade com eles.

 

[…]

 

No entanto, também é verdade que este corpo que faz parte do mundo, e que oferece aos outros seres o espetáculo do que sou, é ao mesmo tempo o que me encerra em mim e me individualiza; já a consciência, que há pouco parecia tão fechada, sempre busca ultrapassar os limites que o corpo lhe impõe, afim de abarcar a totalidade do mundo.[7]

 

O ser absoluto refere-se ao mesmo Ser Supremo ou infinito[8] de Mário Ferreira, aquele de onde emanam todos os outros numa relação de participação que será muito utilizada por Lavelle no decorrer da obra. Se a relação da consciência com o ser (a consciência ainda é ser, mas participado) for bem-sucedida, deve-se sentir “a cada momento o carácter necessário das diligências intelectuais que se efetuam[9]”. Embora pareça enigmático, o primeiro parágrafo do segundo tópico não é mais do que uma descrição da consciência em relação com o ser.  Mas o segundo parágrafo é um pequeno exercício de sadismo.

 

A necessidade referida não é “exterior que nos constrange” nem “puramente lógica”, mas é aquela que coincide entre o pensamento e a essência das coisas. Daí a cumplicidade entre o pensamento e as coisas. Esta é uma referência à apreensão do ser, mas ainda quanto à captação da essência na apreensão; aqui se diz que o cognoscente pode captar o cognoscível.  Ora, o ser é o que há de mais cognoscível, ainda que totum, non totaliter (todo, mas não totalmente). Lavelle dá a essa correspondência um valor ontológico na medida em que acompanha a operação reveladora e formadora do nosso próprio ser (reveladora do ser e formadora da consciência, dito de outra forma). Explicita em seguida o que havia sido insinuado sobre a participação quando diz: “atesta, realizando-a, a realidade essencial do ser puro e do nosso ser participado[10].”  Em seguida, uma frase que deve ser gravada para meditação posterior:

 

O conhecimento mais profundo que possamos adquirir do ser consiste no nosso próprio consentimento em ser[11].

 

Para felicidade geral, o terceiro parágrafo é bem mais leve, e diz apenas que essa análise só é justificada se as descrições forem correspondentes à realidade, e, se assim for, estamos seguros da presença do ser. Ora, o simples ato de olhar para o objeto mais próximo prova o que foi dito neste capítulo; neste, no anterior e nos próximos. O último parágrafo trata apenas de que a experiência do ser é sempre individual, embora a mesma para todos, e o que o autor pode fazer é sugeri-la e facilitá-la, permitindo ao leitor a descoberta individual de uma verdade sempre presente que precisava apenas de um pouco mais de atenção para ser descoberta.

 

“É que todos os homens contemplam o mesmo ser: a cada um deles cabe ser desperto por um outro para o pensamento ou acordar, por sua vez, um terceiro. Não podem comunicar uns com os outros senão através de uma comunicação de cada um deles com o mesmo objeto.”[12]

 

 

  1. A posse do ser é o fim de toda a ação particular

 

            Quando dizemos que o ser é presente ao eu e que o próprio eu participa no ser, enunciamos o tema único de toda a meditação humana[13].

 

A primeira frase do capítulo 3 também deve ser meditada num tempo oportuno. O ser é presente ao cognoscente, e o cognoscente participa do ser. E pelo fato de o ser ter inesgotável riqueza (pois nunca o temos totalmente, lembremos da frase, todo mas não totalmente), toda a investigação feita pelo homem terá como tema o ser, seja em si ou em alguma modalidade. O ser é o fundamento do conhecimento, e por isso contém tudo o que é possível ser conhecido. Em termos kantianos, o ser é a própria experiência possível.

 

O segundo parágrafo é um tanto polêmico; diz que a presença do ser é objeto de intuição e não de dedução, pois todas as deduções devem tê-lo como fundamento, cumprem-se nele e encontram nele sua verificação. Não trata-se de uma intuição sensível ou intelectual, pois, neste caso, soaria irrelevante; pois se tudo o que há é, uma intuição sensível capta objetos que são, e uma intelecção intelige objetos que também são. Em seguida, afirma que o ser é ainda o fim de todas as operações do pensamento e da vontade, o que parece consequência direta do dito anterior.  O mesmo se diz do restante do parágrafo: nossas intuições não bastam por si e só tem valor enquanto medirem a posse do ser.

 

            O terceiro parágrafo diz algo que não é novidade para os familiarizados à teoria tomista da apreensão. Nós apreendemos o ser em sua forma particular, ou seja, nas coisas, em seu estado momentâneo, no tempo. Aqui Lavelle diz algo interessante ao mencionar que, admitida a capacidade da consciência de apreender o ser, é este mesmo ato que possibilita a compreensão de uma coincidência com as formas de ser. Mas isto gera o seguinte problema: com que direito chamamos vários objetos diferentes sob o nome de ser (quid juris?)? Lavelle reduz o problema à questão do eu, pois

 

“Percorremo-lo em todos os sentidos, acossamo-lo de todos os lados, esperando encontrar no fim qualquer situação privilegiada na qual, esquecendo todos os ensaios infrutuosos que preencheram a nossa vida, encontraremos a sua razão de ser, tomando consciência tanto da sua essência quanto do seu lugar no universo.[14]

 

Mas é da experiência do ser que partimos (tópico 1), e esta nada mais que é uma experiência confusa que devemos analisar (totum, no totaliter). É no decurso da apreensão operada que nossa personalidade se constitui (lembremo-nos da consciência), descobrindo sua verdadeira essência (autoconhecimento, que também dá no conhecimento do ser de algum modo) e unindo-se ao ser num ato inteligível onde a experiência inicial encontra explicação. É no decurso desta operação que podemos perceber que a experiência final é a mesma experiência inicial; tudo parte do ser e volta ao ser.

 

O último parágrafo possui uma pequena crítica ao abstratismo, que, segundo Lavelle, é o ato de fantasiar com a imaginação enquanto se perde o contato com a realidade. Então devemos voltarmo-nos à experiência (do ser), pois é ela que poderá nos fornecer conhecimento sem risco de cairmos num construto ilusório — ainda que seja uma experiência espiritual, no sentido de consistir em operações do pensamento. Aqui surge uma sentença que deve ser meditada. Quando se diz que a mesma operação do pensamento deve ser necessariamente adequada ao dito propósito, dado que esgotamos seu conteúdo no momento em que a realizamos e que sua verdade pode ser sempre verificada, Lavelle parece de um modo de insinuar a presença constante do ser. A operação sempre encontrará seu objeto, e ele sempre lhe dará a validade da qual necessita. Esta experiência pode ser vista como uma criação na medida em que o espírito (agora no sentido de consciência) engendra a si mesmo.

 

 

 

  1. A descoberta do Eu contém já a descoberta do Ser

 

Nunca encontramos o eu numa experiência separada. O que nos é dado primitivamente não é um eu puro anterior ao ser e independente dele, mas a existência mesma do eu, ou ainda o eu existente, o que significa que a experiência do eu envolve a do ser e constitui uma espécie de determinação desta[15].

 

 

O primeiro parágrafo do tópico quatro nos dá algo já insinuado nos três anteriores; a experiência primitiva (do ser) não é algo que não o ser, não havendo um eu independente do ser; a experiência do eu é apenas uma determinação do ser total.

 

O segundo parágrafo diz algo comum aos kantianos, ao dizer que o eu não pode intuir seu próprio pensamento a menos que o coloque na posição de objeto, que estando em relação consigo, não confunde-se em operação. Mas mesmo que possa-se fazer distinção, não quer dizer que haja algo como um pensamento que intui e um intuído, mas apenas operações de um mesmo; “o objeto do pensamento e o seu ato estão compreendidos no interior do mesmo ser[16]”. Usa-se o exemplo do pensamento como analogia para nossa operação no interior do ser total, na medida em que nossas operações ocorrem em seu interior; aqui se insinua mais uma vez a participação, mas de modo dialético, quando se diz que à primeira vista, dois itens parecem contrastar, mas seguidamente, se vê que estão de acordo.

 

O terceiro parágrafo nos diz que a noção de ser é mais fácil de apreender do que a de “eu”, na medida em que chamamos por esse nome a consciência, que recusa-se a ser “fixada” (lembremo-nos da condição de devir dela, dita nos tópicos anteriores); “Pois o eu escapa-nos logo que tentamos fixá-lo: é móvel e evanescente; é que está em progresso incessante e constituísse somente pouco a pouco[17]”. O ser não tem esse problema por ser sempre o mesmo. Mário Ferreira prova isso na Filosofia Concreta, inicialmente na tese 14[18], quando diz que alguma coisa sempre foi, sempre existiu, há, é e existe.  Se assim não fosse, poderia haver uma ruptura no ser (haveria um não-ser existente, o que é absurdo).

 

Em meio às coisas diversas que ocorreram no tempo, deve haver algo que sempre há, que sirva de sustentáculo, pois do contrário haveria ruptura do ser, o que não pode dar-se.  O ser é sempre presente, e não há caractere do real que não esteja em seu escopo; aqui se vê a nuance eterna do ser, como possibilidade do tempo. O ser, enquanto eternidade, dá sustentáculo a seus análogos temporais (os seres físicos); por isso, Boécio diz que “a eternidade é a posse total, simultânea e perfeita de uma vida interminável”.[19]

 

O quarto parágrafo volta-se ao subjetivo, e supõe que o “eu” seja agora a experiência primitiva, o primum notum. Isso nos obrigaria a considera-lo a origem de tudo o que notamos após ele, como comumente se faz desde o início da filosofia moderna, que alguns chamaram “revolução copernicana” da filosofia. Mas isso seria forçar o eu a abarcar a totalidade do real, este do qual o eu já retira seu ser limitado; aqui Lavelle aponta que o subjetivismo pode ser uma espécie de pensamento metonímico, onde toma-se a parte pelo todo, ao reduzir o ser a apenas um de seus caracteres. O mesmo aponta sem seguida que o eu está preso em seus próprios limites, e se pensa poder abarcar o ser, é por estar nele anteriormente.

 

“[..]o eu está condenado doravante a permanecer encerrado em seus próprios limites; se tem a ilusão de engendrar o ser, é só porque ele se estabeleceu neste antes de tudo.”[20]

 

Os dois últimos parágrafos não irão além disso.

 

 

  1. O Conhecimento está ao mesmo nível do Ser

 

“[…]na ordem lógica, o pensamento não pode aparecer senão como uma especificação do ser que o engloba”[21]

 

O primeiro parágrafo do tópico quinto nos diz que se o eu bastasse a si mesmo, seria compreensível que fosse impotente para sair de si mesmo, conhecer algo que esteja além do “campo da experiência possível”, fazendo com que todo o conhecimento seria uma modalidade do mesmo eu, e por consequência, toda apreensão seria capaz de apreender apenas o fenômeno, ou aparência. No entanto, isso nos força a pôr em dúvida nossa própria condição de existência, na medida em que algo de nós deve ser incondicionado na medida em que condiciona a possibilidade de compreensão dos fenômenos enquanto condicionados por nós. Aqui Lavelle parece referir-se a temas tratados na Crítica da Razão Pura[22], especificamente a Dialética Transcendental, onde são tratadas as ilusões transcendentais, como por exemplo, a existência da alma. Assim, o eu subjetivado é obrigado a comunicar a existência de outrem na medida em que não pode comunicar a sua própria.

 

Assim, no terceiro parágrafo, Lavelle diz uma pequena obviedade, para que não nos esqueçamos: que na ordem lógica, o eu não é anterior ao ser, embora na psicológica, usemos o eu para compreender o ser.

 

No quarto parágrafo, Lavelle afirma que nada pode haver no pensamento que não esteja no ser; é coerente, visto que o ser abarca todo o real. Mas é também evidente que o ser infinito ultrapassa infinitamente o eu limitado; deste modo, a busca do conhecimento é sempre ilimitada, visto que nunca abarcaremos a totalidade do ser em que estamos imbuídos.

 

Daí, consequentemente, a consciência (ou eu) deve ser interior ao ser e não inversamente; e por, de qualquer modo, a mesma ser inclusa no escopo do ser, deve retirar daí sua existência, livrando-nos da suposta ilusão transcendental da impossibilidade de postular a existência de nós mesmos. Aqui dá-se um princípio à epistemologia, investigar o ser mesmo, mostrar sua possibilidade e condições.

 

Em seguida, um trecho um tanto problemático; Lavelle afirma que o tempo, onde o conhecimento se manifesta, deve bastar para dar conta do modo como o nosso pensamento é unido ao ser que nos ultrapassa. Assim, devemos distinguir entre um pensamento em potencial e um pensamento atual. Expliquemos: nós, como seres inseridos no tempo, possuímos o mesmo como um dos instrumentos que usamos para conhecer; não esqueçamos que o tempo mesmo é um modo de ser. Este deve dar conta dos rudimentos de nosso conhecimento para que alcancemos pontos mais profundos do mesmo ser. Quanto à divisão do pensamento, deve-se vê-la como a mesma divisão feita por Tomás de Aquino entre intelecto possível e intelecto agente, sendo apenas faces do mesmo intelecto uno.

 

“Para resumir o precedente em algumas fórmulas simples, diremos que o ser não pode em nenhum grau ser considerado como um modo do pensamento, porque o próprio pensamento deve ser definido antes de tudo como um modo do ser. Imagina-se muito amiúde que o pensamento, pondo-se a si mesmo, põe o caráter subjetivo de tudo o que pode ser: mas, para pôr-se, é preciso que ele ponha antes de tudo sua existência, ou seja, a objetividade da sua própria subjetividade”[23]

 

  1. A Presença do Ser cria a nossa própria intimidade ao Ser

 

            Se todo o conhecimento e toda a ação são lastreados por uma experiência fundamental a que se pode chamar “experiência de presença”, esta, quando analisada, manifesta em seguida um triplo aspecto: ela nos dá sucessivamente a presença do ser”[24]

 

 

Se tudo o que podemos conhecer é baseado no ser, ou na presença do mesmo, temos um aspecto triplo na experiência; a experiência da presença do ser, da nossa presença ao ser, e de nossa interioridade em relação ao ser.

 

A presença do ser, a princípio é indeterminada perante o conhecimento, mas não pobre ou vazia de conteúdo, pois do contrário, seria nada; é uma confusão comum nadificar a indeterminação; algo indeterminado ainda é algo, assim, nos esquivamos dos comuns ataques que buscam reduzir o ser a um conceito vazio pelo motivo de não poderem determina-lo a algo específico. Lavelle afirma algo interessante, ao dizer que “onde o ser é, é necessariamente inteiro, mas indiviso e capaz de tornar possíveis todas as divisões ulteriores[25]”. Pode facilmente explicar a sentença através de analogia; o ser é sempre inteiro, pois não pode haver rupturas, sempre indiviso por ser simples e sempre capaz de tomar divisões enquanto todos os entes apreendidos são também ser. Alguns podem dizer que para conhecer o ser, é preciso antes haver o eu; mas este eu não pode descobrir-se a não ser através do ser do qual faz parte; “a originalidade do sujeito individual reside, com efeito, em não envolver o ser como sujeito senão como condição de ser envolvido por ele como indivíduo.”[26]

 

Lavelle nos diz que o pensamento é um meio para que reconheçamos nossa inserção no ser, que nos dá sempre a prova de sua presença. Mas, por estarmos sempre inseridos no tempo, parece que a todo momento devemos considerar a própria operação do pensamento como ponto arquimédico frente à contingência do tempo. Esta foi a ilusão do argumento cartesiano “cogito ergo sum”; se a existência fosse uma ideia, não haveria existência da ideia. Não há termo primitivo além da presença total do ser que possibilita a operação do pensamento.

 

A nossa presença ao ser, derivada da presença do ser, pode ser vista como aquilo que nos divide do ser ao mesmo tempo em que não podemos ser destacados dele; daí que surge a nossa noção de eu. Como ser finito, o eu não é senão aquilo que poderá tornar-se (lembremos da condição de devir da consciência), estando em perpétuo crescimento na apropriação do conhecimento contido no ser total.

 

Por fim, a terceira distinção trata da interioridade relativa ao ser, que não é senão nossa participação no ser total

 

As três etapas da experiência da presença são solidárias na medida em que o ser mostra-se ao eu, que descobre a si mesmo, e por fim, como inserido no ser. Lavelle faz um comentário interessante, onde diz que devemos manter a distinção clara afim de que a formação da nossa personalidade não pareça uma criação autônoma, mas sim como uma participação do ser.

 

 

  1. A intimidade ao Ser não difere da intimidade para consigo mesmo

 

           

            O primeiro parágrafo talvez seja confuso. A intimidade aqui é dita como a presença de si apreendida, e esta, identificada como a presença do ser; a princípio, nada muito diferente do que temos visto até aqui, visto que nós somos ser. Isso é explicitado logo em seguida, quando Lavelle revela que o conteúdo do eu nada mais é do que conteúdo do ser mesmo, na verdade, apenas uma modalidade dele.

 

         “De fato, o eu não tem conteúdo próprio que não seja o conteúdo do ser, ou antes, esse conteúdo é precisamente uma perspectiva sobre o ser total, de modo que as duas operações pelas quais o eu se opõe ao ser e se inclui nele se identificam.[27]

 

O segundo parágrafo nos alerta do erro que é tratar os seres que apreendemos como ilusórios, pois nada mais é que uma penetração no ser mesmo; lembremos que não há exterioridade ao ser; como diz Lavelle, o eu não tem hipótese de encontrar o não ser em algum momento.

 

O terceiro parágrafo aperta um pouco as coisas; diz que a interioridade do eu (que não difere do ser, no sentido apresentado anteriormente), sendo uma participação do ser total, evidencia que este último é inesgotável. O participado não esgota o participável. Mário Ferreira nos explica isso na Tema III do Tratado de Simbólica, quando diz:

 

“E como o participante participa do participável segundo o seu grau de ser, e ele é finito, esta participação é, consequentemente, finita, mas reveladora de uma escalaridade de perfeição[28]

 

O mesmo na Tese 6 da Sociologia Fundamental e Ética Fundamental.

 

         “[…] todo ser finito é um participante, simplesmente porque todo ser finito não tem a sua razão de ser dada por si mesmo e, para ser, necessita do Ser Supremo que o cria. E tudo quanto é real no ser finito é recebido do Ser Supremo. As perfeições do ser finito são, portanto, participadas, pois, por ser finito, não tem nenhuma perfeição absoluta (simpliciter). A perfeição, que participa do ser finito, é finita. O participante, vimos, participa de uma perfeição em grau intensistamente inferior à perfeição que há do ser participado”.[29]

 

A nossa consciência, na medida em que participa do ser total, não exprime senão as possibilidades contidas neste, e na medida em que se desenvolve no terreno do ser, descobre sua aptidão para o conhecer (no sentido em que participa do mesmo). Nenhuma consciência pode transpor seu limite individual no sentido em que participa do ser a seu próprio modo.

 

O quarto parágrafo nos diz que “a intimidade universal do ser dá a esta presença pela qual o ser se nos revela antecipadamente, a sua verdadeira significação[30]”. A intimidade já foi esclarecida acima, (presença do ser apreendida), e revela sua verdadeira significação na medida em que, se houver a acusação de que a presença do ser é nada mais que a presença de estados do sujeito, possamos nos defender dizendo que se assim fosse, atribuir limites ao sujeito seria errôneo; pois o mesmo não teria razão alguma para versar sobre algo que não pode ser apreendido. Há uma afirmação interessante, quando Lavelle alega que a percepção do tempo distingue-nos do ser total; ela faz sentido se olharmos para o que se tem dito sobre a eternidade e a participação; o tempo participa da eternidade, assim como participamos do ser. Aqui Lavelle aproxima-se muito de Mário Ferreira ao mencionar a unidade do ser total e de um pensamento infinito:

 

“Esta presença possível e escalonada se tornaria uma presença real e simultânea para um pensamento muito mais potente do que o nosso. E se poderia então conceber a presença do ser total como indiscernível do pensamento infinito.”[31]

 

O último parágrafo ignora o subjetivismo ao afirmar que em vez de dizer que não podemos sair de nós, é lícito admitir que podemos penetrar em todo o escopo infinito do ser sem precisarmos sair de nossa própria natureza.

 

Em outras palavras, participar do ser infinito ao modo de nossa essência.

 

  1. A Consciência é um diálogo com o Ser

 

“O ser deve ser definido como a presença absoluta.”[32]

 

Já deve estar claro tal definição no decorrer do livro; negando-a, nega-se a própria existência. A presença do ser é implicada na experiência da existência (primum notum) que o eu tem em si mesmo, e apesar de estar inserido no tempo e ter seus estados nele, está sempre presente para si, na medida em que não tem existência fora do ser. A princípio parece confuso, mas dito de outro modo, o eu adquire sua existência ser de que participa, e este é infinito, eterno, total.

 

Tu es verum esse, Tu es totum esse[33]

 

No terceiro parágrafo, Lavelle alerta-nos à alegação de que, se toda presença é mútua, logo a distinção entre duas formas dá-se por relação. No entanto, mesmo que assim fosse, é impossível pensar essas duas formas como não inclusas numa presença anterior às mesmas; a presença absoluta consiste no fundamento de todas as presenças separadas, e por o ser finito não poder representar nada mais que uma forma de diversidade, a presença total deve necessariamente ser para ele a presença unânime.

 

O quarto parágrafo parece mudar de assunto, ao dizer que a presença manifesta-se como dualidade, na medida em que o eu está presenta para si, no sentido de seus estados serem sempre presentes; assim, a vida o do eu “opõe-se reúne-se” a si mesma. Em seguida, esclarece ao dizer que, assim como ser e suas diferentes relações, o eu tem seus diferentes estados; num certo sentido, o ser total também é presente para si mesmo.

 

Lavelle parece ao mudar de assunto ao afirmar que a dualidade é a forma sob a qual a presença se manifesta, dado que o eu está sempre presente para si mesmo, no sentido de seus estados estarem sempre presentes para ele. Mas entre o ser e suas diferentes formas, a mesma relação poderia estabelecer-se; nesse sentido, o ser todo é presente para si mesmo, considerando que suas partes (os seres análogos) estão sempre presentes para o todo.

 

A seguir, volta-se ao tema da consciência, agora definida como um debate ou diálogo constante e infinitamente variado entre as partes individuais e universais em nossa natureza. Nesse diálogo constante que o ser revela-se como presença que possibilita o mesmo; não existe antes dele, mas apenas nele e através dele.

 

  1. A Presença do Ser ilumina a mais humilde das aparências

 

           

E chegamos ao último tópico da primeira parte.

 

Aqui, Lavelle inicia o primeiro parágrafo explicando que nenhum pensamento pode atingir a experiência perfeita de integrar-se totalmente no ser; quando tal presença é dada, foi por causa do esforço do conhecimento em penetrar na mesma, e é quando a vida toma sua significação.  Fora da presença, tudo é suspenso, tudo acusa a fraqueza de nosso espírito e denuncia nossa miséria. Aqui se dá algo muito parecido Às explicações de Tomás de Aquino, quando afirma que o conhecimento aproxima o homem da verdade e nesse sentido eleva sua alma; ora, estar longe da verdade é estar longe de Deus; mas do mesmo modo que sempre buscamos sua presença, nada que façamos por nós mesmos pode alcançar sua infinitude; me parece uma analogia apropriada com a intenção de Lavelle.

 

Lavelle menciona que fora da presença, o objeto não é mais do que uma sobra, o que nos faz pensar que se refere mais uma vez, aos objetos como mero fenômeno, como fez referência em capítulos anteriores. Mas como não é assim, convoca como prova a experiência familiar, algo muito parecido com o sensus communis, para mostrar que todos os objetos participam da presença com a mesma dignidade, e por esta participação que nos comunicamos com o ser inteiro em sua indivisível plenitude.

 

Em seguida, diz que tal comunicação tem mais valor que a posse de todo o particular, o que nos faz pensar que é uma alusão a beatitude.

 

A partir daqui, Lavelle passa a um discurso de cunho moral, onde diz que os homens estão preocupados em preencher a presença como se ela mesma não possuísse conteúdo, e assim prendem-se ao objeto mais do que à presença que permite que haja objeto, este que não mais é do que um ínfimo destaque do todo. Assim, este não pode ser perseguido como um fim, sem que nos legue o amargor do arrependimento; esse discurso é muito próximo do de Agostinho e os autores da Patrística, quando pregam que as coisas terrenas não podem ser tomadas como fim, este tipo de “culto” pertence apenas a Deus.

 

Lavelle diz ser familiar a observação que nos diz que não importando a situação, o homem sempre pode dar-se o mais alto destino espiritual; mas por outro lado, também pode permanecer desamparado e impotente. Mas nem a grandeza nem a pequenez dos acontecimentos visíveis contribuem para afetar seu bem verdadeiro, que reside na intimidade do seu contato com o ser; aqui se faz alusão à vida espiritual e o contato com o divino. Em seguida, diz que é necessário que as coisas deixem de ser para nós apenas objetos, e que passem a ser instrumentos que nos permitam aumentar nossa comunhão com o ser, e nossa “filiação” diante do mesmo.

 

Aqui se encerra o tópico nono, de uma parte que começou com ontologia e terminou com ensinamentos de cunho moral. Espero ter ajudado àqueles que desejam um melhor entendimento de A Presença Total, e talvez num futuro próximo, esse autor que tanto tem a nos legar, passe a ter seu devido reconhecimento.

 

Até a próxima parte.

 

 

Referências Bibliográficas

 

De Aquino, Tomás. O Ente e a Essência. Tradução de Luiz João Baraúna, 1º edição. São Paulo, Editora Nova Cultural LTDA, 1996.

_____________. Summa Theologiae.

Lavelle, Louis. A Presença Total. Tradução de Carlos Nougué, 1º edição. São Paulo, É Realizações, 2012.

_____________. O Mal e o Sofrimento. Tradução de Lara Christina de Malimpensa, 1º edição. São Paulo, É Realizações, 2014.

Santos, Mário Ferreira dos. Filosofia Concreta. 1º edição. São Paulo, É Realizações, 2009.

_____________. Sociologia Fundamental e Ética Fundamental. 2º edição. São Paulo, Logos LTDA, 1959.

_____________. Tratado de Simbólica. 2º edição. São Paulo, Logos LTDA, 1959.

Scotus, Duns, Tratado do Primeiro Princípio, Tradução de Carlos Nougué, 1º Edição, São Paulo, É Realizações, 2015.

Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Mourão. 8º edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013

[1] Filosofia Concreta p.67

[2] Ver “O Ente e a Essência” de Sto. Tomás de Aquino

[3] A Presença Total p.31

[4] Ibidem p.32

[5] Ibidem p.33

[6] Ibidem p.33

[7] O mal e o sofrimento p.107

[8] Filosofia concreta p.249

[9] A Presença Total p.33

[10] Ibidem p.34

[11] Ibidem p.34

[12] Ibidem p.34

[13] Ibidem p.35

[14] Ibidem p.36

[15] Ibidem p.39

[16] Ibidem p.39

[17] Ibidem p.39

[18] Filosofia Concreta p.89

[19] Boécio, apud Sto. Tomás de Aquino. Summa Theologiae. I, q. 10, a. 2.

[20] A Presença Total p.40

[21] Ibidem p.41

[22] Crítica da Razão Pura, a partir da p.295

[23] A Presença Total p.42

[24] Ibidem p.45

[25] Ibidem p.45

[26] Ibidem p.45

[27]  Ibidem p.49

[28] Tratado de Simbólica p.53

[29] Sociologia Fundamental e Ética Fundamental p.183

[30]A Presença Total p.50

[31] Ibidem p.50

[32] Ibidem p.53

[33] Tratado do primeiro Princípio p.24. Tu és o ser verdadeiro, Tu és o ser total.

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