As pessoas são descartadas ao lixo desde a concepção

O presente ensaio foi redigido por Kellin Borges, paraguaya filha de brasileiros, formada em Psicologia e colaboradora do Movimento Somar Para Vencer. Inicialmente foi redigido em espanhol para o site (LINK) e traduzido pela autora para que os não-falantes de espanhol – Equipe Somar Para Vencer.

As pautas pró-aborto estão diretamente relacionadas com certas ideias equivocadas sobre os temas da maternidade e da paternidade. Até mesmo sobre a família.

Atualmente notam-se ideias totalmente contraditórias sobre a procriação: desde o pensamento de que os filhos constituem a união matrimonial como também a afirmação de que estes possam ser comparados a sanguessugas do lar.

A corrupção ideológica dos termos (fenômeno analisado por Vitor Matias em seu artigo intitulado “Mimetismo Ideológico e Corrupção de Termos” [link: http://www.somarparavencer.com.br/index.php/2016/03/26/mimetismo-ideologico-e-corrupcao-de-termos/] como o de liberdade e livre-arbítrio são, talvez, os que conduzem os movimentos abortistas ao afirmarem que a mulher é dona de seu corpo[1], e assim, única e somente ela tem o direito de decidir quando e como terão um filho, tornando a interrupção gestacional (aborto) algo opcional.

As conclusões que se obtém através de premissas que se relacionam entre si e o exercício lógico destas nos induzem a uma verdade. Assim, como quando um casal se encontra com problemas de fertilidade, compram o direito da reprodução através de inseminações artificiais e fecundações In Vitro, uma mulher pode entender que tem o direito de “não ser mãe”, já que os filhos constituem um troféu, um premio ou um presente.

As ideologias que hoje contaminam o senso comum das pessoas influenciam em tais distorções. Claramente se comprova ao notar a inúmera quantidade de órgãos de manobra (como grandes fundações, ONGs, associações, movimentos feministas, etc.) para ser aprovada a legalização do aborto, ao mesmo tempo em que aumentam as clínicas especializadas em reprodução assistida. É contraditório pensar que enquanto pessoas pagam fortunas pelo ‘direito’ à fecundação, outras, optam pelo aborto.

A intenção não é fazer um julgamento de ambas as situações, mas sim, dar a entender a concepção de tais aspectos.

Quando os filhos são tomados como propriedade de uma pessoa, esta pode atuar segundo seu próprio juízo sobre o que está em sua posse. Os filhos não são propriedade de seus pais, como acontece com um automóvel comprado com o esforço do trabalho, e assim, por seus méritos, que possa ser guardado na garagem, ser usado para seu deleite, inclusive, exibido como um premio e no momento em que não é mais conveniente tê-lo aos seus cuidados, ser vendido ou trocado pelo modelo do ano. Se assim fosse, seria aceitável a ideia da interrupção da gravidez, já que essa nova aquisição representa um gasto maior no orçamento mensal e exigirá uma dedicação e tempo que no momento, não se tem sobrando para dar.

Nesta mesma ideia, o fato de que o filho nasça com uma deficiência, um problema de saúde que requer cuidados específicos ou renuncias por parte dos pais é considerado um castigo divino ou um fardo difícil de carregar, já que ninguém quer um troféu que não fique à mostra na estante, que precise ser levantado em todo momento porque insiste em cair ao chão e por isso, necessite ser guardado na gaveta, já que um troféu foi feito para ser exibido. As iniciativas abortistas em relação à precoce detecção de síndromes (ex: Síndrome de Down) já são aprovadas em muitos países com a argumentação sobre o principio da ‘qualidade de vida’ onde se vê necessária a garantia de disfrute da saúde dos pais matando seu próprio filho porque veio “com defeito”.

Os filhos, desde a concepção, são pessoas humanas, e como todo ser humano, tem direitos e deveres por si só, como afirma a filosofia kantiana: “O ente racional não é um meio para um fim, mas sim, um fim em si mesma”.

Durante a etapa de gestação, o feto precisa do corpo da mãe – e de seus cuidados – para que possa se desenvolver. Quando nasce, e na etapa da infância, necessita de cuidados físicos e mentais para crescer com qualidade. Com a chegada da adolescência, inclusive na idade adulta, precisa de instruções e educação para se constituir um ente social dotado de faculdades e valores. Em resumo, o ser humano precisa de seu(s) procriador(es) (entenda-se como as pessoas responsáveis pela criação) mas isso não indica que esta pessoa se transforme no seu objeto de uso e possessão.

Os vínculos familiares gerados na relação pais-filhos não são facilmente explicados ou estudados, assim como é imensurável o sentimento de uma mãe por seu filho, porque este conjunto social existe por normas transcendentais não restringidos por uma constituição ou regulamento escritos, mas respeitam àquela lei não escrita que “desde os tempos mais remotos vigem” (Antígona).

Se os filhos, desde a concepção, são considerados como objetos dignos de exaltação o descartáveis através do aborto, não é de se surpreender que a sociedade use, abuse e descarte as pessoas adultas, como objetos sexuais, financeiros, de manobra política, ou apenas favoráveis aos próprios objetivos.

O valor humano se dá, não somente a partir da concepção “óvulo fecundado por um espermatozoide”, mas por uma consideração da noção de pessoa como fim em si mesma.

-Kellin Borges

[1] Assunto tratado lateralmente por Vitor Matias no artigo “Por uma Liberdade Prudente”

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