Cartas de um anjo a seus aprendizes

Resenha do livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz”

Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou lá um grande sujeito, como posso ser uma péssima pessoa. Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos de meus inimigos. Aliás, pensando no assunto, lembro que os primeiros mestres cristãos já diziam que se deve odiar as ações de um homem mau, mas não odiar o próprio homem; ou, como eles diriam, odiar o pecado, mas não o pecador.

Por muito tempo julguei essa distinção tola e insignificante: como se pode odiar o que um homem faz e não odiá-lo por isto? Somente anos depois me ocorreu que fora exatamente essa a conduta que eu sempre tivera com uma pessoa em particular: eu mesmo. Por mais que eu abominasse minha covardia, vaidade ou cobiça, continuei amando a mim mesmo.[1]

Cartas de um diabo a seu aprendiz é um livro um tanto paradoxal e delicadamente genial. Dividido em 31 capítulos, descreve as tentativas do demônio Fitafuso, que através de cartas, tenta ajudar seu sobrinho Vermebile a tentar um homem. No livro, o inferno é hierarquizado como uma empresa, onde o cargo de tentador mais baixo, consistindo no demônio fazer o papel de “anjo da guarda inverso”, pois em vez de auxiliar a pessoa, busca tentá-la a pecar o suficiente para ser levada ao inferno, ao “pai das profundezas”. O alvo das tentações é chamado “paciente”, pois deve ser “curado” das investidas do “inimigo”. Por ser contado na perspectiva da correspondência entre demônios, a moral é totalmente inversa, mostrando os métodos de tentação, e evidenciando o total desconhecimento das criaturas quanto aos desígnios de Deus. Aí que se deposita a genialidade de C.S. Lewis, que, ao mostrar a moralidade invertida, desvela todas as pequenas ações do cotidiano que nos levam a pecar, e se utilizando-se dos “defeitos”, para revelar aquelas virtudes que às vezes nos esquecemos de cultivar.

Logo na primeira carta, é possível perceber como o materialismo pode ser uma perigosa arma de persuasão às mentes mais fracas; nesta, Fitafuso aconselha seu sobrinho a aproximar o “paciente” de amigos materialistas e cultivar várias filosofias incompatíveis em sua cabeça, de modo a dissociar seus pensamentos de suas ações (faça o que digo, e não o que eu faço). Esta primeira carta é dedicada a demonstrar como a confusão mental pode afetar a vida espiritual da pessoa, e é de grande valia para o leitor que deseja fazer uma auto avaliação de seus pensamentos.

O Jargão, e não a argumentação, é o seu melhor aliado para afastá-lo da Igreja. Não perca seu tempo tentando fazê-lo pensar que o materialismo é verdadeiro. Faça-o pensar que é algo sólido, ou óbvio, ou audaz – enfim, que é a filosofia do futuro.[2]

A terceira carta foca sua atenção no impacto psicológico e espiritual que conflitos familiares causam, desde um simples pensamento até uma briga em si, passando por todas aquelas pequenas ações que a primeira vista inofensivas, mas que evoluem para problemas mais sérios, como o isolamento da pessoa dentro de sua própria casa. A quarta é uma extensão da terceira, mas foca em como as tentações podem corromper o hábito de rezar, vertendo as intenções da mesma não para Deus, mas para si mesmo, além de corromper a noção da imaterialidade divina para algum símbolo qualquer, ou um conceito errôneo, impedido a efetividade de qualquer prece. Em suma, uma espécie de idolatria.

A sétima carta é especialmente interessante, quando Fitafuso responde o motivo de os demônios tentarem a todo custo ocultar sua existência.

Quando os humanos não acreditam na existência de demônios, não temos mais os agradáveis resultados do terrorismo direto e não podemos “produzir” nenhum mago. Por outro lado, quando acreditam em nós, não podemos transformá-los em materialistas e céticos. Pelo menos não por enquanto. Tenho grande esperança de que, no devido tempo, aprenderemos como tornar a ciência dos homens emocional e mítica a ponto de passarem a desconfiar daquilo que na verdade é a crença na nossa existência (embora não sob esse nome) ao mesmo tempo que suas mentes se mantêm fechadas para o Inimigo. A “Força da Vida”, a veneração do sexo e outros aspectos da Psicanálise podem ser bastante úteis nesse sentido. Se pudermos produzir nossa obra perfeita – o Mago Materialista, o homem que não apenas utiliza mas que na verdade venera aquilo a que dá o nome vago de “Forças”, ao mesmo tempo que nega a existência de “espíritos” -, então saberemos que a batalha chegará ao fim. Enquanto isso, devemos obedecer sempre às ordens que nos são dadas. Não acho que você terá muita dificuldade para deixar o seu paciente na mais perfeita ignorância. O fato de “demônios” serem predominantemente figuras cômicas na imaginação dos homens modernos será de grande ajuda. Se a menor suspeita da sua existência começar a surgir na mente dele, evoque a imagem de um ser trajando roupa colante vermelha, e convença-o de que, já que ele não pode mesmo acreditar numa coisa dessas, ele não pode, portanto, acreditar na sua existência.[3]

O “mago materialista” é provavelmente um dos conceito mais geniais do livro, e é de grande valia ao leitor. É comum no mundo secular encontrarmos variados tipos de pessoas com a crença comum em “signos”, a “energia universal”, “Chacra”, “alma da natureza” entre vários outros nomes, mas negarem violentamente a existência de substâncias espirituais, formas (no sentido de Eidos). O mago materialista existe, e é encarnado na figura do cientista exotérico, que acredita em alguma forma de energia empírica pré big-bang e venera o modelo matemático quantitativo como se fosse qualitativo. Também pode ser visto de forma comum em universidades, encarnado no militante comunista “good-vibes” exotérico. Neste mesmo capítulo, são evidenciados os danos das divisões entre grupos dentro da própria igreja, como focos de cisma.

            O livro gira em torno da queda de braço entre Fitafuso e seu sobrinho procurando puxar o “paciente” para o inferno, perscrutando cada ação para corrompê-lo, procurando frustrar as pequenas ações da vida que o impedem de cair, como sua conversão, o contato com pessoas de fé mais avançada (que é visto com horror pelos demônios), e o descobrimento de novos aspectos do divino, tudo com aquele humor nas entrelinhas que só C.S. Lewis poderia produzir. Pode-se dizer que Cartas de um diabo a seu aprendiz é como um tratado moral, que através da mais imoral das criaturas, procura nos mostrar todos os pontos onde a tentação do dia a dia tenta nos arrancar do bom caminho, como situações diárias, pensamentos corrompidos, como a sociedade secular que procura a todo custo nos transformar em “magos materialistas”.  É altamente recomendável lê-lo mais de uma vez, pois a cada leitura uma nota que tenha passado despercebida é encontrada e fixada na memória; por ser um livro pequeno (202 páginas), pode ser terminado rapidamente, até por ser uma leitura muito envolvente. Por fim, é aconselhável ser lida em conjunto com “Cristianismo Puro e Simples”, do mesmo autor, como forma de facilitar o entendimento, pois os dois livros compartilham de muitos conceitos comuns, especialmente às pessoas que querem transformar a virtude em um hábito. Embora o nome possa causar alguma estranheza, este livro é como um presente de C.S. Lewis para nós, especialmente por conta da influência de nosso tempo; ele busca nos ensinar o óbvio que nos esquecemos (no livro, Fitafuso bate muito na tecla que a missão dos demônios é nos fazer esquecer o óbvio) e a resgatar o senso comum (no sentido chestertoniano). Isso me motivou a titular o artigo com o nome de “cartas de um anjo a seus aprendizes”; pois é esse o legado que vejo ao ler cada livro do autor, onde cada página possui um ensinamento para nós.

Boa leitura.

 

iss

 

[1] Lewis, C.S, Cristianismo Puro e Simples,6º ed. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2014, p.154/155.

[2] Lewis, C.S, Cartas de um diabo a seu aprendiz,4º ed. São Paulo, WMF Marfins Fontes, 2014, p.2.

[3] Ibidem, p.31/32.

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