Pensar por si mesmo

Contribuição da leitora Paloma

O ser humano é movido por um ciclo infindável de dúvidas, o que faz com que ele busque, de maneira constante, resposta para tudo o que há em sua volta. Na Filosofia, como ponto inicial de algum estudo, partimos da pergunta “qui est”, ou seja, “o que é isto?” afim de realizar um estudo mais especifico sobre algo. Busca-se, portanto, tentar alcançar a verdade por meio de um questionamento, cujo processo passa pela reflexão. Este requer disposições inatas e é fruto de um hábito contínuo

O pensamento foi objeto de estudo de diversos filósofos, como por exemplo o papel do “eu pensante” em Descartes, a busca do mestre interior em Agostinho, entre outros. Mesmo que os objetivos fossem aparentemente distintos ainda assim o pensamento era parte componente das obras filosóficas, e tal fato perpetua-se na contemporaneidade. O ato de pensar não foi instrumento de estudo somente do âmbito filosófico, mas ampliou-se em outras áreas e muitos autores das mais diversas literaturas questionaram-se acerca da temática. Como exemplo disto, o heterônimo de Fernando Pessoa. Alberto Caeiro e seus poemas utilizando-se de conceitos metafísicos levantou questões sobre o que era o pensar e qual a razão que o levara a tal, de acordo com seu ponto de vista e de sua vivência de mundo

Com base no dicionário o verbo pensar é definido como sendo um processo pelo qual a consciência apreende em um conteúdo determinado objeto. Além disso, pensar também é sinônimo de refletir, de formar, de combinar ideias, de raciocinar e ou de planejar. Não há corno deixarmos de pensar, pois até pensar em nada, de uma certa forma já é pensar em algo. Logo, partindo do pressuposto de que o pensamento faz parte do ser e, independente da área que atuamos, refletimos constantemente, o que seria então, pensar por si próprio em um curso de filosofia?

Primeiramente, pensar por si próprio é apoiar se na própria inteligência, cujas ideias formam-se na mente do indivíduo a partir de algum conceito ou de alguma experiência. Quando se pensa por si próprio significa que se leva em consideração as reflexões particulares sem deixa-se influenciar por outrem. Entretanto, por mais que o ser tenha um pensamento independente, ou seja, não precise de outro para pensar por ele. Somos indivíduos formados por ideologias e convivemos em sociedade. Logo, os fatores externos contribuem em sua maioria para a formação do nosso pensamento acerca de algo

Mesmo diante de influências externas, para Schopenhauer, aquele que é conduzido pelo gênio, ou seja, que pensa por si mesmo, que pensa por vontade própria, de modo autêntico, possui a bússola para encontrar o caminho certo[1]. Entende-se que o filósofo defende a ideia de que devemos ser donos do nosso pensamento e pensar por si, pois é por meio da nossa reflexão que encontramos o caminho certo.

Além, de enfatizar tais aspectos, o autor menciona que devemos recorrer à leitura apenas quando a nossa fonte de pensamentos seca, entretanto é necessário ter cautela, pois algumas leituras são falsas e desviam-nos do caminho certo. Não se deve substituir os pensamentos próprios por livros, já que renega-los para ter um livro em mãos é “um pecado contra o Espírito Santo.

Com base nesses apontamentos feitos pelo filósofo, pensar por si mesmo em um curto de filosofia é justamente equilibrar o pensamento próprio e a leitura de textos alheios. Deve-se, assim, não substituir os referenciais teóricos (textos) por pensamentos, afim de a leitura ocupar inteiramente o lugar do ato de pensar. A leitura serve como base complementar para expandir a reflexão do ser e o modo que este possibilitará o alcance da aletheia tão desejada, oscilando de modo equilibrado entre o pensar por si e a s fontes externas.

Pensar por si próprio no curso de Filosofia é justamente ler e saber filtrar as informações verdadeiras, para que estas sejam benéficas no processo de reflexão, e não nos influenciarmos por informações manipuladoras que cegam a capacidade de reflexão autônoma do indivíduo. Além disso, assim como a leitura, a experiência também não pode substituir completamente o pensamento. Deve-se então, haver um equilíbrio entre o conhecimento do mundo, a ideologia que cada um carrega, e as fontes teóricas buscadas, ou seja, as leituras que são realizadas.

Para completar um curso satisfatório é necessário que o pensar por si próprio se faça presente de maneira constante, logo as leituras devem ser instrumento de guia para a construção do ato de pensar e não substitutas da reflexão.

Trazendo tais aspectos da obra A arte de escrever para a prática, precisamente quando lemos o texto de outros autores, nota-se que é plausível aplicar o “pensar por si próprio”, de Schopenhauer, em outras situações. Como exemplo, o texto de Victor Goldschmidt, Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos, também pode ser encaixado em tais questões, ou seja, seria ele também um ser que pensa por si próprio?

Goldschmidt afirma que a filosofia é explicitação e discurso, isto quer dizer que este se dá por meio de movimentos sucessivos, no curso dos quais produz, abandona e ultrapassa teses ligadas umas às outras numa ordem de razões[2]. No caso, a progressão desses movimentos será responsável por dar à obra a sua estrutura, que se efetuará em um tempo lógico. Além disso, também há o tempo histórico, que é definido como o tempo do filósofo, este que não é o mesmo para todos, pois cada um possui o seu em sua temporalidade particular.

Após discorrer de ambos os aspectos, Goldschmidt levanta questões em relação ao intérprete, pois este precisa ter determinado comportamento diante de um texto, sem deixar-se levar apenas por suas opiniões próprias.

Nota-se, então, que quando se trata de “pensar por si próprio”, mesmo que de maneira inconsciente, acabamos, de uma certa forma, seguindo o texto de Schopenhauer. Analisando esses aspectos utilizando o ponto de vista do filósofo, para Goldschmidt, então o seu posicionamento sobre a leitura de textos é um tanto distinta, pois ele afirma que o intérprete não pode simplesmente só pensar por si próprio, mas deve averiguar o texto, o seu contexto e estudar outras sobras do autos que está analisando. No caso do intérprete não há como apenas pensar por si, já que não se pode interpretar o texto fora dele mesmo, ou seja, supor informações que não são evidentes. Não há como interpretar algo além do que o texto oferece.

Dentro da análise de Goldschmidt, notamos essa presença da essência que Schopenhauer passa para os leitores, porém, além disso, o próprio Victor Goldschmidt enquadra-se, de maneira equilibrada, em tal pensamento. Isto ocorre porque à medida que escreve seu texto e define os dois conceitos de tempo, ele está pensando por si próprio e utilizando, ao mesmo tempo, outras fontes para desencadear sua ideia. Logo, o autor apropria-se de um pensar próprio, mas sem abandonar os textos que lhe servem como referência para elaborar sua visão. Então, quando se escreve textos de cunho científico-acadêmico exige-se que haja um elo entre o pensar por si próprio e outras fontes bibliográficas. Alguns autores trabalham de maneira equilibrada, em outros há a predominância de citações teóricas e pouco pensar por si e vice versa.

Concluímos, portanto, que Goldschmidt utiliza-se de seu pensar por si para formular suas ideias e passar para a modalidade escrita, assim como também não abandona a base teórica de outros autores. Fica claro, então, que os apontamentos feitos no livro A arte de escrever manifestam-se em nós, mesmo que não seja de forma aparente e/ou intencional. Sendo assim, as conexões e, muitas vezes, as intertextualidades que temos a capacidade de realizar, possibilitam que façamos filosofia cotidianamente, comprovando que os mais diversos autores tornam-se universais.

[1] Schopenhauer, Arthur. A arte de escrever, São Paulo, L&PM EDITORES, 2007, p.42

[2] GOLDSCHMIDT, Victor. Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos A religião de Platão. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1963. p. 140.

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