O Gênio Ostracizado: uma introdução a Mário Ferreira dos Santos

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Quando a obra de um único autor é mais rica e poderosa que a cultura inteira do seu país, das duas uma: ou o país consente em aprender com ele ou recusa o presente dos céus e inflige a si próprio o merecido castigo pelo pecado da soberba, condenando-se ao definhamento intelectual e a todo o cortejo de misérias morais que necessariamente o acompanham” – Olavo de Carvalho

Mário Ferreira dos Santos é uma figura um tanto enigmática: um ilustre desconhecido de nosso passado recente, tão próximo e tão distante de nós. Durante os estudos, não raro somos incentivados a valorizar aquilo que vem de nosso país: nossas músicas, nossos filmes, nossa literatura geral, nossas belezas naturais. Somos praticamente forçados a ler durante oensino médio pelo menos cinco livros de grandes autores brasileiros, a estudar nosso folclore, entre outras variedades culturais. Longe de mim apontar tal fato como crítica, já que o incentivo ao conhecimento nacional é bom. Melhor ainda quando tal conhecimento aponta para bons exemplos, pessoas que possam ser tidas como modelo de conduta. Após concluídos os estudos do período escolar, é possível se aproximar de qualquer recente ex-estudante e perguntar-lhe, “qual a imagem do brasileiro para ti”? “Quais são seus ídolos?”. Não raro, para a primeira pergunta, a resposta será algo relacionado ao “jeitinho brasileiro”, ou ao “malandro”. Para a segunda, algum artista em voga, ou escritor visto durantes os estudos. Eis um defeito crasso em nosso ensino: possuímos o que pode se chamar de cultura negativa; saudamos a imagem do Brasil com termos vagos ou mal colocados, e o depreciamos com termos certeiros. No fim da equação, a imagem que sobra a nós é altamente crítica, uma crítica corrosiva, como a cobra do Ouroboros[1], que se autodestrói.

Possuímos uma alta gama de “eruditos desconhecidos”, onde pode-se afirmar que sua obra é tão densa e vasta, que não possuem paralelo atual. Alguns nomes são Farias Brito, Vicente Ferreira da Silva, Plínio Salgado, José da Silva Lisboa e… Mário Ferreira dos Santos.

Mário foi um filósofo brasileiro nascido em Tietê, em 3 de janeiro de 1907 e falecido em 11 de Abril de 1968. Foi formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de Porto Alegre, e posteriormente, mudou-se para São Paulo, onde fundou as editoras Logos e Matese, para divulgar suas obras. Estas (obras) revelam um pensamento vasto. O pensamento de Mário Ferreira é comumente chamado de “Filosofia Concreta”, que tem como objetivo a síntese de todo o conhecimento possível em um grande construto que penetrasse os temas transcendentais (metafísica), mas mantivesse a capacidade de ser aplicável a temas sociais e à vida cotidiana. O termo técnico para o cume de tal pensamento foi chamado Mathesis Megiste, ou “suprema instrução”.  Visto que o mercado editorial brasileiro carecia muito de obras básicas para o estudo da filosofia (e ainda o é, em verdade: estudiosos das obras dos escolásticos não encontram boas traduções, o que é uma vergonha), usou suas editoras para traduzir e comentar obras de outros autores, enquanto maturava e escrevia suas próprias.

A Filosofia Concreta, embora um construto monstruoso, não é muito difícil de ser entendida, pelo menos em seus graus iniciais. Se assemelha a uma metafísica escolástica recoberta de uma armadura kantiana, e preenchida pelo próprio pensamento do autor. É um conceito curioso, visto que a crítica do “destruidor da metafísica” foi usada para criar um monstro muito maior do que um criticista poderia sonhar. Inicia-se com o axioma principal “algo há”, e a partir deste pequeno postulado, devidamente demonstrado, parte para as teses consequentes, depois outro postulado, sua demonstração, e suas consequências. Aos poucos, surgem os fundamentos da ontologia e lógica, que vertem-se em teoria do conhecimento; neste ponto, procura postular a validade e apoditicidade de cada conhecimento posto, e feito isso, é preciso eliminar as críticas primárias ao método. Dentro do sistema da Mathesis, o Niilismo, o Agnosticismo e o Relativismo, além do Ceticismo Universal são inaceitáveis, e refutados em seus primórdios. Feito isso, em vários de seus livros serão encontradas críticas a Kant, e posteriormente, a absorção do que há de valoroso em sua filosofia, incorporando especialmente sua contribuição à lógica.

As obras são divididas em Fundamental, onde o autor introduz seus termos técnicos (esquematologia, noologia, intensidade e extensidade, sistência, ex-sistência, etc) e conhecimentos básicos necessários à boa leitura, como o grandioso Lógica e Dialética, o qual introduz um método novo chamado Decadialética. Neste, desenvolve uma “dialética de dez campos” com oposições entre categorias lógicas, procurando examinar a totalidade do objeto. No nível Médio, o destaque fica por conta do Tratado de Simbólica, que procura perscrutar a gênese e análise dos símbolos, tema importante para estudo da religião comparada. Embora católico, Mário possuía forte espírito ecumênico, buscando a unidade das religiões em sua filosofia; afinal, se há apenas uma verdade, é sensato procurar seus sinais por todas as partes possíveis. No fim só haverá uma. No nível Superior, há seus escritos sociológicos e o grande Filosofia Concreta, um calhamaço metafísico que sintetiza seu pensamento e aplica todas as suas forças em um sistema rígido; pode ser comparado a uma bola de demolição, é basicamente impossível lê-lo e continuar acreditando em teorias sem fundamento. Por fim, há as quatro sabedorias (Leis Eternas, Do Ser e do Nada, Princípios, Unidade) que revelam o cume de seu pensamento, em livros pequenos mas extremamente densos. Fora esses, há tratados diversos, de economia, religião, antropologia, comentários diversos e análises; entre tais, o Invasão Vertical dos Bárbaros continua atual, embora publicado há mais de 50 anos.

Mas, se um dia possuímos um pensador tão grande, o que houve com seus livros?

É difícil dizer. Desde a renascença os metafísicos tem sido subestimados, e nos tempos modernos quase esquecidos, embora pouca ou nenhuma escola de filosofia moderna possa refutar seus postulados, sob o risco de se autodestruir. Mário recusava-se a lecionar em universidades, para que essas não obstruíssem o pouco tempo que lhe restava para escrever entre seus cursos particulares e palestras: era como um Heráclito, sem o lado rabugento. A consequência foi a baixa popularidade e dificuldade em formar discípulos. Outro problema era sua ojeriza pela modernidade; criticou a sociedade e sua filosofia, utilizou-se de métodos até então desconhecidos, debateu com Caio Prado Júnior e derrotou-o em um debate no Centro Anarquista de São Paulo, tudo na presença de Luís Carlos Prestes. Mário não gostava do materialismo-dialético, e os materialistas-dialéticos (esquerdistas em geral) não gostavam dele, o problema era que estes que gozavam de maior prestígio acadêmico. Assim se iniciou um processo de ostracismo: uns por não entender o que ele dizia, outros por tentativa de apaga-lo da história. Por sorte, não o conseguiram.

Não é precipitado dizer que a importância de ler Mário Ferreira hoje é pelo motivo de o mesmo ser um dos poucos pilares possíveis para uma reconstrução intelectual e espiritual para o povo brasileiro. Possui os métodos para afastar todas as filosofias negativistas e construir uma nova égide intelectual, possui os apontamentos necessários para problemas sociais e suas possíveis soluções. Estudos aprofundados de seus escritos podem facilmente dar origem a uma escola de pensamento com raízes nos maiores pensadores da história. A Filosofia Concreta não se preocupa com pressupostos, não é possível encontrar pressupostos na obra; todos os postulados são demonstráveis, e quando não, explicados em sua obviedade por todos os métodos possíveis. É triste que o estado libere verba para construção de cátedras para um filósofo estrangeiro pós-moderno que pregue uma filosofia que se baseia em erros filosóficos e não valorizar um dos maiores pensadores que já pisaram em suas terras.

O que foi feito com Mário Ferreira dos Santos é análogo ao que fizeram com D. Pedro II: enquanto o monarca foi expulso de seu país por um golpe de estado dado por sujeitos inferiores, o filósofo foi expulso da academia por um golpe intelectual dado por pensadores menores. A verdade pode ser ocultada, mas nunca destruída, e por tal motivo, mesmo que sua obra seja esquecida, seus postulados sempre virão à tona. Valorizemos o que é nosso, e honremos este homem que tanto quis nos ensinar.

“O homem é um fim e não um meio. Utilizá-lo, transformá-lo em peça de um mecanismo, é ofender a sua dignidade.” – Mário Ferreira dos Santos

 

Deixo abaixo uma tabela de argumentações negativistas e suas respectivas respostas, que se revela um exercício divertido de análise discursiva. Pode ser encontrada na obra Invasão Vertical dos Bárbaros, É Realizações, 1º Edição, Maio de 2012.

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Observação 1 : As opiniões de Olavo de Carvalho, Plínio Salgado, entre outros filósofos e pensadores que foram apresentados aqui, não são necessariamente apoiados pelo movimento, embora sejam considerados pensamentos dignos de estudo.

Observação 2 : A busca de Mário pela Mathesis e os pontos de concordância entre as religiões não deve ser tomado como sincretismo, mas no máximo, como um ecumenismo filosófico, que não busca fundar religiões ou seitas, mas demonstrar as centelhas de verdade descobertas por vários povos.

[1] Ouroboros (οὐράβόρος) é um símbolo representado por uma cobra comendo a própria cauda. Pode significar tanto o eterno retorno quanto a autodestruição.

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